terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Pés no chão


(Imagem: Arquivo MLR)



Gisa confessa que provoca arrepios pensar na realidade de uma infância como a da cena descrita no post anterior. Célia pergunta pelo futuro da criança, enquanto Maria Teresa vê nosso cotidiano sem melodia, no qual está imersa a desesperança. Emília, que atravessou um quarto de século exercendo a profissão de educadora, cita o desamparo da criança brasileira, diante de outras preocupações dos governantes. Bom leitor é assim mesmo: alcança logo a mensagem.

Alceu de Amoroso Lima dizia que criança não é feliz. Com ele, fazia coro o romancista francês Georges Bernanos, que residiu na cidade mineira de Barbacena durante seis anos. Além de perceber uma “tristeza misteriosa nas crianças”, Bernanos recorria à experiência que, segundo ele, demonstra que há também “desesperos na infância”.

O Tempo, que vira as páginas da História, já distanciou de nós a infância cuja descendência, hoje, se pergunta como agir para encaminhar as gerações futuras. Sem nostalgia, verdade é que a tecnologia que aprofunda as pegadas que deixamos também dissolve sonhos.

Na virada deste século, Washington Novaes escreveu sobre a imprensa européia, que então abordava o comportamento dos jovens. Anarquismo, rebeldia, movimentos para reconquista do espaço público e, sobretudo, o suicídio, estavam entre as preocupações repercutidas pela mídia. Ainda segundo o autor do artigo, estudo solicitado pelo governo francês à época evidenciava o sofrimento dos jovens, cuja puberdade se antecipara dos 17 para os 13 anos. “Eles se tornam adultos mais cedo”, escreveu Novaes, “mas não conseguem, emprego. E tem de ficar, em média, até os 25 anos na casa dos pais”.

Premiado documentário exibido recentemente pela TV Cultura, intitulado Ballets Russes, conta a história da lendária companhia da qual nasceu o balé moderno. Sua trajetória é narrada por ex-integrantes do grupo do qual fizeram parte nomes como George Balanchine, Alicia Markova, Léonide Massine e Ivonne Craig (que mais tarde interpretaria a Batgirl, do seriado para a TV). Nele, homens e mulheres octogenários relembram infância e juventude de abnegado amor à arte, cujos resultados só foi possível colher com esforço e perseverança, temperados com doses equilibradas de realismo e sonho.

No vídeo, uma das bailarinas de sucesso da companhia, já de cabeleira branca e rosto vincado de rugas, manifesta dúvida em como fazer para que os jovens de hoje acreditem na concretização de um ideal, sobretudo se ele está na difícil, sofrida, solidária e belíssima arte da dança. É o que talvez falte à infância que, diante de um nebuloso e quase residual sentido de família, cambaleia entre o individualismo embalado pela tecnologia e uma árida planície sem horizontes, mas repleta de solidões.

Se a juventude ainda é exemplo de alegria para a sociedade, também deve sê-lo de certeza – e não de dúvida – quanto ao futuro. Como sugere a foto da jovem patinadora de Brasília, Tathiana Takasaki, medalhista em alguns dos principais torneios nacionais e internacionais da modalidade. Resultado de garra e amor pelo que se faz.

Sem tirar os pés do chão.

8 comentários:

Marcos disse...

Muito bom. A nossa preocupação como pais, onde esta juventude vai parar,

Abraço.
Marcos

Maria Luiza disse...

Amei o texto! Parabéns"
beijos!

Célia disse...

Essa nova geração, de certa forma, urdida em nossos valores que não os satisfazem, saem em busca da rebeldia na base do custe o que custar, para evidenciarem seus novos valores. Socialmente desajustados, convivem tecnologicamente, mas humanamente não têm alicerce algum. Pés no chão? Onde? A grande maioria carrega sua "adolescência" até próximo aos 40 anos... na casa dos pais vivendo um autêntico "autismo"! Infelizmente!
Seu texto é uma reflexão para uma palestra!
Abraço, Célia.

Rosemary disse...

Minha admiração pela forma como coloca as palavras, desta vez, fez com que eu tivesse que reler, atendo-me à questão do texto. Isso me fez pensar, esperançosa, que pode existir beleza até nessa trágica "realidade". Deve ter uma razão, ainda desconhecida, incompreendida. Talvez tenhamos que fazer uma releitura.

Maria Teresa disse...

Para refletir e tirar o sono. Como será o amanhã? Tecnologia nenhuma preenche lacunas de afeto e aconchego só se descortina nas histórias fictícias. Para muitos. Sorte que ainda há Tathianas Takasakis. Poucas, mas cheias de luz.
Grande abraço

o mar e a brisa do prazer de aprender disse...

Passei aqui, pois a saudade é grande. belo post . Mil bjs

MIRZE disse...

Excelente texto, Eduardo!

Concordo que toda criança seja triste. Eu fui, minhas filhhas menos, mas também apresentavem tristeza. A saída sempre está no incentivo da família. Esportes, dança, artes e principalmente a música, matemática com claves.

Perdõe-me a ausência mas tive vários problemas.

Estou voltando!

Beijos

Mirze

elvira carvalho disse...

A criança triste. Amanhã será um homem triste. Muitas crianças tristes fazem esta humanidade sem futuro.
Um abraço e bom Domingo.