(Imagem: Flickr, do álbum de ildiko.torok)
Nenhum anunciante, nem colaborador – nada. A existência de O Periclitante estava nas mãos de seu único repórter, fotógrafo, editor e proprietário, M. Neves. Seria preciso trazer emoção, impacto às páginas. Era o que o genial Neves estava determinado a fazer naquela segunda-feira: voltaria das ruas com a notícia-verdade, a matéria-impacto. Não duvidassem dele.
Com a velha câmera a tiracolo, passou, como de hábito, pela fila do posto de saúde. Ali a miséria ia diariamente implorar a migalha de um socorro-favor. Então viu quando a mãe grávida pôs no chão a criança que trazia nos braços. Atenta ao batidão do funk que vinha de dentro da bolsa, meteu a cabeça lá dentro e passou a revirar enorme quantidade de objetos, à procura do celular.
O repórter percebeu quando a criança afastou-se da mãe, o fotógrafo botou-lhe a câmera nas mãos e o editor determinou que ele acompanhasse aquele menino de andar cambaleante como o de um bêbado. A mãe falava ao telefone, sorrindo, gesticulando, fazendo charme... Enquanto isso, a criança, na medida em que avançava, abria um claro na multidão apressada.
Contorcendo-se em meio àquela gente, o jornalista procurava não perder de vista a notícia. Pisou o pé de uma senhora carregada de sacolas, deu cotovelada no carro do pipoqueiro, quase derrubou a banca de um camelô. As pessoas olhavam a criança correndo com certa desenvoltura pela calçada, enquanto a mãe tagarelava no celular.
Braços estendidos, o garotinho parou junto ao segurança do carro-forte de uma transportadora de valores. O guarda, por sua vez, estava atento aos transeuntes.
Atraída pelo brilho do cano da arma, a criança levou a mão ao coldre do segurança que, num salto espetacular, sacou a pistola e apontou-a na direção de onde supunha vir um ataque.
O clarão do flash de M. Neves registrou a cena que, no dia seguinte, apareceria na primeira página de O Periclitante: um segurança de cara assustada apontava a arma para uma criança que sorria. Abaixo, a manchete:
Infância ameaçada!
(Texto reeditado, publicado originalmente em Pretextos-elr em 14/07/2009)
Com a velha câmera a tiracolo, passou, como de hábito, pela fila do posto de saúde. Ali a miséria ia diariamente implorar a migalha de um socorro-favor. Então viu quando a mãe grávida pôs no chão a criança que trazia nos braços. Atenta ao batidão do funk que vinha de dentro da bolsa, meteu a cabeça lá dentro e passou a revirar enorme quantidade de objetos, à procura do celular.
O repórter percebeu quando a criança afastou-se da mãe, o fotógrafo botou-lhe a câmera nas mãos e o editor determinou que ele acompanhasse aquele menino de andar cambaleante como o de um bêbado. A mãe falava ao telefone, sorrindo, gesticulando, fazendo charme... Enquanto isso, a criança, na medida em que avançava, abria um claro na multidão apressada.
Contorcendo-se em meio àquela gente, o jornalista procurava não perder de vista a notícia. Pisou o pé de uma senhora carregada de sacolas, deu cotovelada no carro do pipoqueiro, quase derrubou a banca de um camelô. As pessoas olhavam a criança correndo com certa desenvoltura pela calçada, enquanto a mãe tagarelava no celular.
Braços estendidos, o garotinho parou junto ao segurança do carro-forte de uma transportadora de valores. O guarda, por sua vez, estava atento aos transeuntes.
Atraída pelo brilho do cano da arma, a criança levou a mão ao coldre do segurança que, num salto espetacular, sacou a pistola e apontou-a na direção de onde supunha vir um ataque.
O clarão do flash de M. Neves registrou a cena que, no dia seguinte, apareceria na primeira página de O Periclitante: um segurança de cara assustada apontava a arma para uma criança que sorria. Abaixo, a manchete:
Infância ameaçada!
(Texto reeditado, publicado originalmente em Pretextos-elr em 14/07/2009)

5 comentários:
Arrepia a ideia de que a cena pode ser perfeitamente real.
Um grande bj
Humanidade... ameaçada!! Caríssimo Eduardo! No futuro? Futuro? Que futuro... terá essa criança?
Abraço, Célia.
Dá uma certa sensação de enjoo até! Desesperança imersa no ritmo sem melodia de nosso cotidiano.
Crônica estalando de verossimilhança!
Abraços
Como vai meu amigo?
Deixei um recado para os(as) amigos(as) antes de excluir o blog,mas não sei se vc passou por lá e leu.Depois de cinco anos,entre idas e vindas,cheguei a conclusão de que estava na hora de parar,pois cansei da mesmice e dos comentários prontos.Mas trouxe comigo a lembrança e saudade de alguns amigos,como vc.Hoje, resolvi visitá-los...Encontro aqui uma crônica falando sobre problemas da infância,que mexem profundamente comigo,educadora que fui durante 25anos e como vc mesmo escreve:Infância ameaçada!Nesse momento,a preocupação dos governantes é com as próximas eleições ,Copa do Mundo e as nossas crianças continunam desamparadas.Ainda dizem que "é o país do futuro"!
Voltarei sempre pois gosto muito daqui...Um abraço da sua conterrânea e amiga.
Emília
Eduardo, muito bom-dia! Hoje, passando pela Cia dos blogueiros, via o anúncio da sua postagem "Pés no Chão". Vim acompanhar a sua obra e cheguei a esta outra postagem:
Caramba! O bom escritor resume em linha uma História de problemas sócioeducacional que nenhuma ciência conseguiu alcançar até hoje:
"Atraída pelo brilho do cano da arma, a criança levou a mão ao coldre do segurança que, num salto espetacular, sacou a pistola e apontou-a na direção de onde supunha vir um ataque."
A 'imagem da vida' é, de fato, uma ameaça. Quando ela crescer, deixar de ser imagem, estará protagonizando conosco sabe-se lá o que!
Dizer que a criança é o futuro de uma Nação, é jogar sobre os ombros dela a nossa responsabilidade. E no futuro, eu serei o quê? Passado que ainda vive?
Prazer enorme
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