sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Sopro e a Luz


(Imagem: onkel_wart)

“Quando a exposição de Paris fechar, ninguém mais vai ouvir falar em luz elétrica.” (Erasmus Wilson, professor da Universidade de Oxford, 1879)

“Estou apto a suspeitar que todas as espécies humanas são naturalmente inferiores aos brancos.” (David Hume, filósofo empirista, 1766)

“Pelos meus cálculos, o mundo vai acabar em 1950.” (Henry Adams, historiador norte-americano, 1902).


Pobre sabedoria, a nossa!

Numa conversa entre os geniais pintores Edouard Manet e Claude Monet, ocorrida em 1864, o primeiro recomendou ao segundo, referindo-se a Auguste Renoir, então com 23 anos de idade: “Esse rapaz não tem o menor talento. Diga a ele para parar de pintar”. Manet negava talento a Renoir, apesar dele próprio, um ano antes, ter sido recusado por um corpo de jurados conservador, que novamente lhe fecharia as portas do Salão de Paris um ano depois. Somente após sua morte, em abril de 1883, em Paris, Edouard Manet teria reconhecido seu valor como artista. Edgar Degas, seu amigo, confessou que desconhecera, até então, a grandiosidade do talento de Manet.

Thomas Gilovich, professor de Psicologia na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, afirma em seu livro How We Know What Isn't So, que mais de 90% dos professores universitários julgam-se melhores do que seus colegas no trabalho. Quanto aos estudantes, 25% acham que estão entre o 1% dos mais qualificados na facilidade de se relacionarem. E se o assunto é capacidade de liderança, 70% se consideram acima da média, contra apenas 2% dos que batem no próprio peito e reconhecem estar abaixo desse índice.

Do campo pessoal para o da Ciência, os 'furos' podem não ser tantos nem tão visíveis, mas a escuridão de nossa ignorância surpreende e inquieta. Há pouco mais de uma década, uma publicação francesa reuniu 16 sábios e lhes pediu que, nas mais variadas áreas do conhecimento humano, respondessem sobre o que não sabemos. De lá para cá a Ciência avançou, mas está longe de reduzir nossas trevas.

Paleontólogos vêem confusa a origem do homem, e admitem que a árvore genealógica das espécies não para de se ramificar. No campo da Virologia, uma doença complexa como a Aids encontra-se envolta em interrogações. E na Astrofísica? Hubert Reeves, professor no Departamento de Física da Universidade de Montréal, lembra que as simulações matemáticas dos cientistas mostram que, tivesse sido mudada apenas um pouquinho uma das leis que governam o Universo, este permaneceria no caos. E enquanto o próprio Universo mudou consideravelmente, essas leis, porém, não mudaram ao longo do tempo. E pergunta: “De onde vem essa magnífica coerência? Qual é a tábua dessas leis?”

Que dizer então da Antropologia, que pouco sabe sobre o sistema de parentesco adotado pelas sociedades nas diversas partes do mundo? Da Biologia da Reprodução, que desconhece as razões para a divisão do ovo? E da Geofísica e Geodinãmica, que ainda não nos dão respostas que nos possibilitem prever terremotos?

Edouard Zarifian, professor de psiquiatria e psicologia médica, confessou certa vez viver num ambiente onde a maior parte de seus colegas só tem certezas. “Evidentemente, é uma forma de proteção”, continua ele. “Confessar a própria ignorância é considerado um erro profissional – daí a proliferação de um falso saber que tem respostas para tudo, a fim de esconder nossas interrogações”.

Etienne Baulieu, professor francês de medicina, quase repete Zarifian e reconhece que "nossa ignorância se estende a tantos aspectos que não poderia nem numerá-los". E cita apenas três: a reprodução das espécies, o sistema nervoso e o envelhecimento.

No campo da Neurobiologia, muito se ignora sobre a evolução do cérebro. Principalmente se se considerar que a diferença genética entre o chipanzé e o homem é de apenas 1% do conjunto das seqüências do genoma – diferença que, para o professor Jean-Pierre Changeux, “permitiu o aprendizado por epigênese (não genético), a abertura ao meio ambiente, a linguagem, a cultura – em suma, o que encerra a especificidade humana.”

Na História das Religiões, da Arte e da Literatura; na Egiptologia, na Literatura grega e na Lingüística – em tantos outros campos nossa ignorância é tão avassaladora, que seria desanimador tentar dissipá-la, não fossem a curiosidade e, sobretudo, a esperança humanas. Para o astrofísico Hubert Reeves, a grande pergunta é também metafísica: de que serve a longa evolução do Universo, que se estrutura até fazer aparecer essas maravilhas que são os humanos, seres evidentemente incapazes de viver juntos e bem capazes de se auto-aniquilar?

Descrentes – e tantas vezes inchados de pobre sabedoria – escapam-nos palavras como as do salmista: Verdadeiramente, o homem é apenas um sopro.

28 comentários:

Luciana Guimarães disse...

É conflitante como podemos ser o tudo e o nada. Alguém pode passar a vida inteira tentando imprimir sua marca, que só será rechonhecida após a morte. Quando inovamos nos chamam de loucos, têm medo de caminhar por um lugar desconhecido e, tempos depois, olha todos seguindo o caminho antes descoberto e rindo-se daquele em que estavam! Anda bem que existem pessoas que nos fazem pensar. Bjs e bom final de semana!!!

Maria Teresa disse...

Descrentes, insignificantes, pontículos do universo, "matéria impura", sem dúvida. No entanto, se observarmos por um outro ângulo, a criatividade do homem fá-lo brilhar e tornar-se sopro que, junto com outros sopros, produzem certo fulgor que se amplia em lampejo que se amplia em clarão, que se amplia... "Só sei que nada sei", mas procuro a luminosidade para prosseguir com a insignificância do meu sopro.

Mirse Maria disse...

Olá Eduardo!

Entre o sopro e a luz a distância é de zilhões de anos luz, assim acredito. Embora da áea matemática e literária, a única coisa que me interessa em jornais e revistas, são os assuntos relacionados aos avanços da ciência.

Isso porque, vejo a SIDA alcançar um patamar de poder fazer o ser humano ter uma vida caso se adapte aos coquetéis.

O Mal de Parkinson, O Alzheimer e a esclerose múltipla, avançou e parou.

Na cardiologia, os avanços foram enormes, tanto que quase não se morre mais de infarto, se atendido à tempo.

Por trás de tudo isso existe uma guerra de laboratórios que não permite que a ciência avance. E muitas outras coisas que ignoramos.

Pelo menos eu, bato no peito. Pois, só sei o que leio e o que alcanço pela curiosidade de estar sempre acompanhando. Como voluntária do INCA, sei que na área do câncer, se visto à tempo as previsões de cura chegam a 80%.

Mas como é falho o saber, é da mesma forma impraticável o acreditar.

Excelente postagem!

Abraços

Mirse

o mar e a brisa do prazer de aprender disse...

" Só sei que nada sei" O que existe de doutorandos em saberes.
Penso, que as interrogações é que fizeram o mundo mudar e, nós mudamos quando nos questionamos sobre nossas atitudes e resolvemos mudar- vezes até com sofrimento. Mudar, renovar e aprender a cada dia a Viver e transformar o mundo. Bjus

Maria José disse...

Passei aqui para me energizar com uma boa leitura e desejar-lhe um ótimo final de semana. Beijos.

Lidia Maria de Melo disse...

Seu texto me faz lembrar do conselho que costumo dar a mim mesma quase todos os dias, como um beliscão:''Duvide sempre. Cuidado com as certezas. Elas derrubam a gente''. Abraço

Simone Moda disse...

Olá Eduardo. Obrigada pelo convite para participar de seu blog. Os seus textos são significativos, pois há sempre algo para se pensar. Escrever é isso - gerar pensamentos.

Também convido-te para participar do http://cronicaseblas.blogspot.com/

Serás bem vindo.

Cinthia Kriemler disse...

Que bela reflexão.É quase um soco no estômago de cada um de nós, ciscos empedernidos.E aí, muitos anos atrás, um velho pescador dizia ao meu pai, que praticava remo:"Não vai a Paquetá agora não, meu filho, que vem tempestade".Sol ardendo,nuvem nenhum.E meu pai foi.Teve que ser resgatado pela costeira, morto de susto.Explique-se, ainda, essa sabedoria que apenas brota.
Amei este texto seu.Convida à humildade.E dá medo.

A viajante disse...

Adorei! Que seja: um sopro de esperanças...um abraço!

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

"O ser humano é um tubo processador de merda". Não lembro quem disse esta frase, mas vem a propósito. Belo e lúcido texto, Eduardo.

Lu Martins disse...

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia" vem bem a calhar neste post...
Abç

Luís Delgado disse...

Olá Eduardo,

Demorei a responder ao seu amável convite, mas vim, finalmente... :-)

Aqui ouvem-se as engrenagens dos pensamentos, vêem-se as luzes das interrogações e cheira-se o perfume da cultura...

Parabéns pelo excelente blog de tantas reflexos introspectivos inspirados pelos acontecimentos da história e pelo conhecimento humano...

Quando vasculhamos no conhecimento vamos descobrindo cada vez mais possibilidades, mas também vamos eliminando outras...

E mesmo, com tantas interrogações, a verdade é que vamos evoluíndo...

Mesmo, quando retrocedemos, a seguir duplicamos o ritmo a que damos os passos...

Faz parte da nossa pequenez de ser humanos, andarmos muitas vezes perdidos, também no que diz respeito ao conhecimento...

Mas os mistérios de Deus são insondáveis, e o legado material que Ele nos entregou está, e estará em muitas dimensões e vertentes, longe da nossa capacidade de compreensão...

Um forte abraço,

Luís Delgado

Josy disse...

Tenho que concordar com você, pobre sabedoria a nossa!

Abraço na alma.

Luísa disse...

Eduardo, verdadeiramente,muito no homem nem sopro chega a ser...
É uma espécie que tem tanto de aliciante como de alucinante!

Beijinho terno

Cris Linardi disse...

Que maravilha de texto. Só sei que nada sei, também foi a frase que me martelou na mente o tempo todo...
Eu vejo que o homem é petulante a ponto de julgar-se mais criador do que criatura, mas...somos tão inquietos, temos que buscar respostas. Penso que elas tardam por pensarmos que elas já foram encontradas.
Grande abraço, querido. A propósito, você já viu que te linkei na minha página de links?

nereida disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
nereida disse...

Caro Eduardo, agradeço sua visita e suas palavras, lá, "Onde o tempo não pára..."
Muito interessante seu questionamento sobre o quanto efetivamente sabemos...
Lembro-me, agora, da famosa "Alegoria da caverna" , de Platão: escuridão que aprisiona X luz que esclarece!
Somos, na verdade, ignorantes do verdadeiro conhecimento vivendo, apenas do senso comum , mas na verdade nada conhecendo do que seja real(diánoia e nóesis).
Séculos depois, ainda vivemos assim? Das sombras?
Uma ótima semana para você!

PS: Amigo, desculpe-me a ousadia de apagar o comentário anterior, porém dei-me conta de um erro de digitação( faltou uma letra na palavra) e,convenhamos, nossa linda língua portuguêsa não merece descuido, não é verdade?
Um abraço

Thathy Vilella disse...

Oi, Eduardo!!!!!

"Tudo que sei... é que nada sei!!!" . A frase não é minha, eu sei (e não me lembro qual o autor, nem se a transcrevi literalmente); mas traduz bem o que seu texto diz.

Pobre de quem tem certeza de tudo, pois pra esse tipo de pessoa não existe mais vida. Afinal, vida é aprendizado e descoberta, e isso só é possível quando temos curiosidade e humildade pra reconhecer que de nada sabemos, muito menos temos certeza.

Quanto a mim, posso dizer que o mundo é a minha "enciclopédia" , uma "biblioteca" , onde sempre estou fuçando, procurando saber mais e mais sobre tudo.

Não tenho mesmo certeza de nada, e por isso mesmo sempre tô descobrindo coisas novas; e isso é MARAVILHOSO!!!!

Acho mesmo que todo mundo deveria fazer assim, porque dessa forma o mundo seria bem melhor.

PARABÉNS pelo texto!!! MUITO BOM MESMO!!!!

Abraço,
Thalyta

Dulce disse...

E, na maioria das vezes, um sopro que se crê ventania... Tão bom se fosse. pelo menos, um sopro de paz...

blog do Camillo disse...

Pois é Eduardo,
A certeza é sempre relativa. Há os que têm certeza de achar que estão perto da solução. Se considerarmos que o nada é um pouco de tudo, então não se pode ter certeza de nada. As caixas pretas ainda estão por ser decifradas, especialmente o cerebro humano.
Um abraço

roxa disse...

A LUZ, é feita de diferentes cores que viajam para o olho humano em diferentes velocidades. ...
UM abraço da ROXA

roxa disse...

viver sem COR, é viver sem LUZ!?
Um abraço da ROXA

Maria Almira Soares disse...

«L'homme n'est qu'un roseau, le plus faible de la nature; mais c'est un roseau pensant. Il ne faut pas que l'univers entier s'arme pour l'écraser : une vapeur, une goutte d eau, suffit pour le tuer. Mais, quand l'univers l'écraserait, l'homme serait encore plus noble que ce qui le tue, puisqu'il sait qu'il meurt, et l'avantage que l'univers a sur lui, l'univers n'en sait rien. Toute notre dignité consiste donc en la pensée. C'est de là qu'il faut nous relever et non de l'espace et de la durée, que nous ne saurions remplir. Travaillons donc à bien penser : voilà le principe de la morale. Ce n'est point de l'espace que je dois chercher ma dignité, mais c'est du règlement de ma pensée. Je n'aurai pas davantage en possédant des terres: par l'espace, l'univers me comprend et m'engloutit comme un point; par la pensée, je le comprends.»
Blaise Pascal, Le Roseau Pensant

José Luiz disse...

Não saber..., muitas vezes um alento, porque persiste o mistério. Por outro lado, a eterna procura, que é pró-CURA. Vivamos assim, no fio da navalha!!! Abraços e parabéns pelo texto. J. Luiz

HIPOLYTUS disse...

Será que do sopro/energia Divino, fez-se a luz e depois por processos que não cabe a mim, um homem de letras, entender, fez-se a matéria? Um pedacinho menor do que a cabeça de um alfinete e de lá a manifestação do Big-Bang, gerou a nós, espécie sui generis, nos confins da galáxia?
Estava aqui divagando sobre a formação da minha pessoa, da sua, de 'nosotros' e não cheguei e nem quero chegar a lugar algum. Penso tão somente que a pretensão do dito 'homo sapiens' é de um excesso supra, supra qualquer coisa.
Certo estava A. Einstein: "A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original." Como a maioria está abaixo do mediano em QI (qualquer coisa), voltam as mentes ao tamanho original, mesmo após o contato/inovador e retumbante de uma nova idéia.
Ainda, muitos porvires baterão às nossas portas/mentes, até que o tão propalado tempo de Aquárius se 'aproxegue, vixe!' E consiga libertar os homens das suas idéias belicosas e de suas verdades vãs.
O tempo, de hoje, passa mais célere do que anos/luz e já não mais podemos jactar-nos como nos idos tempos da velha maria fumaça. A vida, passava lentamente e nós, éramos muito, mas muito felizes e não tínhamos noção do quanto.
Desarmar-mo-nos é preciso e necessário. Estamos sempre a postos, como se entrar em combate fôssemos.
Viver, é muito simples, mas por ignorância, a espécie humana, adora complicar. ´
Sigmund Freud, disse: "Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro" e aí 'danou-se a nega do c. doce' ou se é rocha ou lama ou se é furacão ou brisa. Não mais meios termos e então....deixem prá lá, afinal, 'eu quero é que o mundo se exploda, pois não me chamo Raimundo'.

contatofalamestre disse...

Inútil explicar o que penso uma vez que você chegou tão completo. Usando palavras que pensamos usar, surpreendendo em teorias que pensamos saber!

Você é maravilhoso no que escreve Eduardo, parabéns! Confesso que crônica é uma preferência minha,e adoro criá-la também, com muito otimismo de um dia chegar ao menos "pertinho" da sua desenvoltura!!!

Um grande abraço,
Su

Lívia Gomes |g* disse...

Consideravelmente sensato meu caro, convidou-me a viajar em tal questionamento e devo dizer que quanto mais tentamos entender certas questões,mais vemos o quanto ainda nada sabemos e necessitamos ao menos permanecer nos preceitos da busca pela eterna sabedoria...ou algo parecido a isso! Mt bom!

;D

visite-nos: http://www.escreverpramentender.blogspot.com/

Roberta Dumiense disse...

Parabéns, Eduardo pela excelente postagem. "O verdadeiro sábio é aquele que se coloca na posição de eterno aprendiz".

Abraços expresso:-)