quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Ana

(Imagem: Pinterest, do álbum de Lindy Nobre Scher)



Abriu o portão da garagem pela manhã e deu com um carro estacionado bem em frente, impedindo sua saída. Esperou pelo motorista, mas atrasado para o trabalho, fez um bilhete e prendeu-o no limpador de parabrisas: “Você me impediu de sair. Em consideração, deixo de solicitar o guincho”.

Ao chegar em casa no final do dia, o homem encontrou um papel cuidadosamente dobrado e metido numa fresta da porta,: “Sinceras desculpas! Tive problemas com Michelle e fiquei aflita. Um abraço. Ana”.

O bilhete de Ana (nome de sua primeira namorada) recendia familiaridade, calor humano e um perfume agradavelmente suave. Mesmo por escrito, era impossível ficar indiferente a uma saudação que, nascida de um pedido de desculpas, desembocasse num abraço e permitisse ao destinatário supor até um sorriso da remetente. Além do mais, não conhecera Ana que fosse feia.

Já amplamente desculpada, a motorista que bloqueara sua saída inquietara-lhe a solidão. Insone, ficou supondo Ana, desejando que o carro da mulher novamente estivesse lá na manhã seguinte, bem em frente à sua porta. Esperaria para conhecer a motorista, perguntaria por Michelle, trocaria impressões sobre o tempo. E, claro, relevaria o novo bloqueio com a desculpa de que não iria ao escritório.

Mal haviam começado a colorir-se os dias daquele solitário, os rabiscos de esperança logo se desfizeram: nenhum carro impedindo sua saída da garagem, nenhuma Ana, nenhum novo bilhete que atualizasse aquele, cuja releitura frequente marcara o papel com rugas e dobras. A cada exame de seu conteúdo, o homem descobrira entrelinhas com insinuações sutis, convites, acenos – tudo mais que suficiente para transformar mensagem casual em apaixonadíssima carta de amor.

Ana só apareceria numa fila de supermercado poucos meses mais tarde, quando o homem já relegara o bilhete ao fundo de uma gaveta. Suspeitara que fosse ela pelo perfume e pelo nome de Michelle, que ela chamava a todo o momento pedindo calma à criança que trazia consigo. Ana era como ele imaginara: uma mulher linda.

Seguiu-a até o carro, que confirmou sua suspeita. Com o coração aos pulos, identificou-se como o autor do bilhete que anunciara dispensa do guincho em consideração... Ela se lembrava ainda?

- Ah, sim, mas isto foi em frente à casa do meu amigo Roberto Almeida, ali na rua Cascais, né?

- Rua Cascais, 95... – o homem respondeu à meia voz.

- Isto!

- É que eu comprei a casa do Roberto...

Ana sorriu com um traço de timidez e pediu desculpas em dobro: pelo bloqueio da garagem e pelo engano no tom familiar com que redigira o bilhete. Em seguida, entrou no carro e, antes de partir, recomendou a Michelle que desse “um adeusinho pro moço”.

(Repost)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A tosse da vaca


(Imagem: Pinterest, do álbum de FelipeArte)

Sem ter como segurar a língua nem suportar o silêncio naquela sala de espera, Jesualdo dirigiu o olhar para o teto e a provocação para o desconhecido que, de cabeça baixa, brincava com os dedos das mãos.
- Tá feia, a coisa...
O outro ergueu as sobrancelhas e deixou escapar um "é" comprido e sem compromisso. Jesualdo não se deu por satisfeito: queria conversa.
- É, a coisa tá preta mesmo.
O outro interrompeu um tricô imaginário e advertiu sobre a conotação preconceituosa da expressão.
- Preconceito? Eu? – admirou-se Jesualdo, apontando com o dedo a pele morena do próprio braço.
- Mas é preconceito... – insistiu o outro.
- Quê que é isso? Se eu posso dizer que essa cadeira aí é preta, a roda do caminhão é preta, não posso dizer que a situação é preta? – Jesualdo foi pegando gosto pela conversa.
- Isso eu não sei, mas que é preconceito, é.
Acrescentando momentaneamente a cor preta à política, religião e gosto – trio de assuntos que a boa e velha educação desaconselhava discutir – Jesualdo decidiu ser mais direto:
- É... Esse governo parece que tá de brincadeira, né? Tá judiando com a gente!
O outro, que já deixara de lado o tricô invisível para folhear com dissimulado interesse um exemplar de revista sem capa, mexeu-se na cadeira e arriscou:
- O senhor me desculpe, mas até pode ser que o governo faça lá uma ou outra bobagem. Afinal, todo mundo erra. Mas daí a dizer que está judiando, é mais uma vez uma atitude preconceituosa.
Aqui o boa praça do Jesualdo perdeu a fala e ficou de boca aberta, olhos arregalados e fixos em seu interlocutor, que de novo se desculpou.
- O senhor releve a minha insistência, mas judiar é palavra que remete a “judeu”. Não é a melhor maneira de se expressar. Desculpe a sinceridade.
Recuperado, Jesualdo foi mais fundo no que passou a considerar uma oportuna provocação:
- Olha aqui, meu amigo: desse jeito a gente vai ter que andar com uma listinha de palavras proibidas, né não? Preto não pode, judiar também não... O amigo não concorda que não dá pra seguir essa bobagem nem que a vaca tussa?
O outro empertigou-se na cadeira, o rosto ligeiramente corado de indignação.
- Primeiro, não sou seu amigo; segundo, o senhor está dispensado de ironias neste momento. E terceiro: se a vaca tosse ou deixa de tossir, é problema lá da ciência, da veterinária, sei lá de onde ou de quem. – E arrematou:
- Tem mais: se eu fosse pecuarista, lideraria um movimento que prevenisse possíveis prejuízos com esse negócio de vaca tossindo.
Dito isto, voltou a folhear a revista.
(Repost - Editado)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Carta


(Imagem: Pinterest, do álbum de Helton Bastos)

Querida Danielle:
Vovô escreve para você porque sua mãe me disse da sua dificuldade em cumprir essa tarefa da escola. Assim, envio-lhe esta carta, que você responde, copia tudo no seu caderno de casa e leva para a professora. Aí você me conta que sua cartinha para o vovô foi a que tirou a melhor nota, combinado?
Vovó Esperança e eu estamos bem, mas com muitas saudades de vocês. Qualquer dia a gente aparece aí na capital.
E você? Estudando bastante? Como estão seus pais?
Enquanto escrevo, o vizinho aqui em frente ouve essas músicas de hoje – o tal de funk. Você gosta disso, Danielle? Pois vovô agora se delicia com a terceira de Brahms...
Espero que você tenha desistido de fazer a tal tatuagem de dragão. Você é ainda muito nova, e seus pais estão certos em não deixar que você faça isto agora.
Estude bastante. Vovô já está ansioso para receber sua cartinha.
Um beijo para você.
Ass.: Vovô Felício e vovó Esperança.
PS – Peça à sua mãe notícias da Juju e me escreva sobre ela na sua resposta.
Vô:
Legal receber sua carta. É a primeira que eu recebo na vida.
Não sei se vou tirar notão. Não gosto de escrever cartas, eu nunca escrevi uma. Prefiro e-mail e face. Você tem face, vô? Se tiver, me adiciona lá. Já estou com 825 amigos.
Não curto muito o funk, não. Gosto mesmo é da dupla Zé Ronaldo e Apolinário. Curto eles cantando “Errei a mira”.
Não sei o que você quis dizer com “a terceira de Brahms”.
Não desisti da tatoo. Dragão é legal e eu ainda vou ter um nas costas, bem grandão.
A Juju morreu atropelada na segunda-feira. Foi a maior confusão aqui na rua.
Bjs.     
Dani
Danielle querida:
Demorei um pouco para responder sua cartinha (sua mãe me falou que sua nota foi boa e que ela teve que corrigir uns errinhos antes de enviá-la a mim).
Como você já deve saber, vovô não andou bem. Ficamos, vovó e eu, muito abalados com a notícia que você deu sobre a Juju.
Querida, a Juju a que eu me referia era a minha única prima ainda viva, a Júlia, e que também mora aí na capital. A Juju que morreu atropelada, segundo sua mãe, foi uma tal dona Judite, vizinha de vocês...
Na minha idade, Danielle, tenho só dois amigos verdadeiros e que, certamente, já me valeram e ainda valem pelos mais de 800 que você diz que tem no face (é uma rede social, né?). Tenho isso não, Dani. Vovô e vovó nem precisam disso para continuar a ser felizes.
Beijo para você, outro para seus pais.
Vovô Felício.
PS – Brahms era um compositor de música erudita. A “terceira” é uma das sinfonias que ele compôs.

(Repost - Editado)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O Vigia - 11


(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)



Peguei meu rádio, algumas peças de roupa e o que sobrou do mapa, e meti tudo numa sacola. Tive o cuidado de não esquecer a cópia amarelada de “O Vigia”, que tão ternas recordações me traz de sua autora. Tudo pronto, fui a mais uma noite de vigília.
Bebel não apareceu. Estive apenas com Priscila, a quem entreguei um envelope lacrado recomendando-lhe que o fizesse chegar às mãos da minha amiga. Em telegráfico bilhete, eu falava sobre uma “breve temporada de férias”, cujo retorno à pilha de tijolos só eu sabia que não aconteceria mais: logo cedo eu passaria no escritório do patrão, onde alegaria uma emergência qualquer – algo inadiável, definitivo e grave o suficiente para que pedisse demissão.
À curiosa Priscila eu disse, sério, que o envelope continha passagens aéreas que nos permitiriam, Bebel e eu, passar tórridos dias de lazer em Burkina Fasso.  A loura arregalou os olhos, deu um gritinho e disse que tomaria satisfações com a traidora companheira, que nada havia comentado com ela sobre a viagem.
Pouco antes das três horas peguei minha sacola, saí e tranquei o cadeado do portão. Antes, tive o cuidado de deixar acesa a lâmpada da entrada.
Nessa hora ouvi o primeiro apito do trem.

FIM

domingo, 17 de julho de 2016

O Vigia - 10


(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)



Passaram-se vários dias desde que andei relembrando o poema de Kaliandra que, por uma dessas coincidências bastante comuns, deu notícias. E o fez pelo Carlão (que andou por aqui) para dizer que está indo para Sidney, Austrália. Vai de mudança, marido a tiracolo e bagagem de mão. Chegando lá, começará vida nova que, torcemos todos os que ficamos fiéis à boa cerveja do Guto, possa continuar repleta de sorrisos, jovial e sonhadora.
Tão logo soube da novidade, tratei de localizar a Austrália no meu mapa. Eu o havia colocado sob uma latinha de tinta, que usei para pintar no tapume uma advertência contra as pichações. Puxei-o com um arranco, a lata virou e derramou sobre o papel um pouco de tinta vermelha. Para minha surpresa o borrão ficou exatamente sobre a Austrália, tendo coberto também Papua Nova Guiné, Indonésia e aquele sem-fim de ilhazinhas que existem ao redor. Uma lágrima vermelha alcançou as Ilhas Christmas.
Incrédulo, eu ainda olhava o estrago quando um pensamento me assaltou: e se tudo fosse uma advertência, um aviso? Tinta vermelha, cor de sangue, sobre o mapa da Austrália, destino da poetisa... E para chegar a Sidney, Kaliandra certamente tomaria um avião.
Peguei imediatamente um pedaço de estopa embebida em solvente e esfreguei-a sobre a mancha, que se espalhou e rasgou o papel. “Adeus mapa, adeus roteiros, adeus Kaliandra!”, desabafei em alta voz.
- Quer dizer então que tenho rival, é? Quem é essa tal pra quem Você está dando adeus, hein?
A pergunta vinha da janelinha do portão e que eu deixara aberta. Emoldurada por uma geringonça de madeira imunda e respingada de tudo, vi, sorridente, a cara da Bebel.
- É um poema... a Kaliandra... nada não!
A prostituta resignou-se a não saber. Falou que poemas são perigosos, podem por em risco os corações. Da parte dela jamais fizera algum, mas já os recebera. Olhou depois para o meu mapa sujo de tinta e perguntou de onde vinha aquele “sangue”, se eu acaso havia tentado o suicídio cortando os pulsos.
- Vale a pena matar-se por mulher não... – aconselhou.  E séria:
- Aliás, só vale se for por mim.

terça-feira, 12 de julho de 2016

O Vigia - 9




(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)


Deixei um pouco de lado o meu mapa, com imaginários roteiros marítimos rabiscados a lápis. Tenho agora a companhia menos silenciosa e mais fraterna do rádio. Passo minhas noites de trabalho ouvindo um programa, pelo qual o locutor transmite recados a quem vive em fazendas no interior. Sei, por exemplo, que há quatro dias uma Sebastiana precisa desesperadamente entrar em contato com seu filho, Alencar Mourão, que trabalha na Fazenda Três Tiros. O motivo é o estado de saúde de alguém da família, que o tal Alencar não vê há mais de três anos.
Embalado pela música, às vezes lembro um ou outro verso de um poema que me dedicou minha amiga Kaliandra – sonhadora, alegre, jovial e fugitiva. Antes de partir para São Paulo, deu-me cópia do que, segundo afirma, compôs “inspirada no misterioso e silencioso amigo, que à noite vigia tijolos, mas dispensa-nos, durante o dia, benvinda vigilância para que não nos entristeçamos”.
“Vigia/guarda e desconfia da solidão noturna./A morte é o passaporte...”, começa o legado que me deixou a poetisa distante e de quem nunca mais ouvi falar. Um dia perguntei-lhe o significado de seu nome. Carlão sacou rápido e foi dizendo que era a mesma coisa de calandra, parte do conjunto que compõe o maquinário de uma oficina de impressão gráfica. Kaliandra aplicou-lhe imediatamente um beliscão, chamou-o mentiroso e negou, com graça, que tivesse nome de sucata. “Kaliandra é uma flor, seu bobo!” – e iniciou longa e detalhada explicação sobre a origem e significado de seu nome.
Há quatro anos Kaliandra se foi. Tomador de conta de prosaicos tijolos de barro, inspirei, no entanto, um poema cuja lembrança, estranhamente, não me torna leve a alma; antes, evoca uma tristeza que desconheço.
"Espia... Acorda... Entorpece... Vigia...”, conclui o poema de Kaliandra. E é exatamente assim a solidão que me acompanha: espia, acorda, entorpece e me vigia sempre.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Vigia - 8



(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)

A polícia deu uma batida por aqui noite dessas e levou as meninas para a delegacia. Só a Bebel ficou detida, segundo o delegado, por desacato à autoridade. Disse que rogaria praga e os quatro pneus da viatura policial furariam ao mesmo tempo, impedindo que todo mundo fosse preso. Também xingou a mãe de cada um dos policiais, distribuiu dentadas e pontapés. Não só nada aconteceu com os pneus, como a Bebel levou uns tabefes e foi em cana. Ela e o restante das princesas, que naquela noite ficaram a ver navios.
Sem faturar, ninguém teria como pagar a diária da dona da casa onde elas moram, caso eu não tivesse recorrido às minhas economias modestas para fazer-lhes um empréstimo. Quanto à Bebel, apesar de libertada na tarde do dia seguinte, ainda não está circulando devido aos ferimentos que recebeu.
Pergunto-me que polícia é essa que espanca mulheres, bate por bater em cidadãos pobres e humildes, mata como se executa um cachorro doente. Talvez eu até proponha uma discussão sobre o assunto dia desses no bar do Guto. Excelente orador, o Palavrinha, bêbado, faria mais um de seus belos discursos. Sóbrio, ele gagueja, não fala coisa com coisa, é tímido.
(Editado)