sábado, 5 de dezembro de 2009

Alegrias natalinas


(Imagem: frippy)


Sentado em frente à tenda do circo, o palhaço via de longe a cidade iluminada se preparar para comemorar o Natal. Pensava em como era difícil reter um pouco que fosse da alegria que proporcionava ao público. Embora produtor de momentos alegres – mercadoria que as pessoas buscam por necessidade – achava-se um sujeito triste e só.

Suas reflexões, no entanto, foram interrompidas pela aproximação de um homem corpulento e de barbas brancas. Trajado com simplicidade, carregava em uma das mãos uma sacola. Cumprimentaram-se.

- O 735 passa por aqui? - perguntou o estranho.

- É, passa. O senhor vai ter é que esperar...

O outro se sentou num caixote e foi logo dizendo que queria ter assistido ao último espetáculo do dia anterior, mas tinha trabalho a fazer.

- O senhor trabalha de quê? - quis saber o palhaço.

- Eu sou vigia noturno, mas nessa época faço nas minhas folgas um bico de Papai Noel. E o senhor?

O palhaço então meteu a mão na mochila que trazia, tirou de lá um chapéu colorido com uma flor espetada no alto, meteu por cima do nariz uma bola vermelha e olhou para o homem. O vigia soltou uma gargalhada.

- É o palhaço... Bonita profissão, a sua.

- Nem tão bonita assim... - lamentou o palhaço. Eu tento levar alegria à criançada, mas ela não dura muito. Nem eu mesmo consigo ficar alegre quando vejo tanta tristeza por aí. Agora, com o senhor é diferente: leva alegria sob a forma de presentes. As pessoas se sensibilizam mais com o senhor do que comigo

Imitando intencionalmente o palhaço, o vigia tirou da sacola um gorro de Papai Noel e o pôs sobre a cabeça. Em seguida, penteou a barba com os dedos.

- É, mas eu também tenho minhas tristezas. Minha alegria é menos real que a sua, porque é fantasia, está nos presentes ou na expectativa que as crianças têm em recebê-los. Na verdade, nem sou eu quem presenteia. Sou apenas um intermediário.

- Isso lá é verdade... – balbuciou o palhaço.

- E também – continuou o vigia – logo as crianças se esquecem, enjoam dos brinquedos. Agora, se eu pudesse produzir alegria como Você...

- E se eu fosse, em minha alegria, generoso e bom como um Papai Noel... - devolveu o palhaço.

- A sua alegria sai do coração, enquanto a minha é só um sonho. Bonito, mas um sonho.

- Mas os sonhos embalam a gente, embalam as crianças. Pode-se viver sem alegria, mas não se vive sem sonhos - filosofou o palhaço.

Calaram-se, pensativos.

A noite avançava, com luzes e festas brilhando à distância. O vigia já consultara o relógio duas vezes. O palhaço acabou quebrando o silêncio ao propor uma troca do que chamou "alegrias natalinas": ambos tentariam empregar um pouco da realidade do outro naquela noite.

- Eu não entendi, palhaço... palhaço... Como é seu nome?

- Mola Mole. Palhaço Mola Mole. Eu explico, Papai Noel.

O vigia se recompôs sobre o caixote, atento ao palhaço.

- Eu vou adaptar alguma coisa de Papai Noel ao meu trabalho – um ato de generosidade, dar alguma coisa a três ou quatro crianças da platéia. Não posso dar nada como o senhor, porque sou palhaço pobre...

- E eu, Mola Mole? - indignou-se o Papai Noel. - Sou um vigia de vida modesta... Mas gostei da proposta. Eu até poderia fazer algum truque engraçado...

- Pois então? Ensino ao senhor o truque da água que sai da flor do chapéu. Vamos trocar por hoje: o senhor vai com meu chapéu de flor e eu fico com seu gorro. É pra gente não esquecer que devemos adaptar nossos papéis. E depois é mesmo Natal, podemos ser um pouco diferentes.

O vigia ficou em pé de um salto. Entregou o gorro ao palhaço Mola Mole, que o colocou na cabeça, ajeitando no nariz a bola vermelha. Feliz da vida, fez o mesmo com o chapéu de flor, depois que o palhaço lhe ensinou o truque. Acertaram a destroca dos adereços no circo, antes do espetáculo do dia seguinte. Cumprimentaram-se em seguida, desejando um ao outro Feliz Natal.

Nessa hora, muito iluminado, surgiu na rua o ônibus 735.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Noel, Noel...


(Imagem: chrisaqua47)

Acima da multidão que transitava pelo centro da cidade, movimentava-se também uma árvore de Natal dourada e adornada com laços, bolas, brilhos e cores. Um braço forte erguia o arranjo acima das cabeças.

Levando nos olhos o brilho do Natal, um menino acompanhava a árvore agarrado à fralda da camisa do dono do braço. Este, por sua vez, seguia a passos rápidos, abrindo caminho com muitos 'licencinha' e advertindo os distraídos para 'o pesado'. Na outra mão, levava um saco vermelho cheio de pacotes.

- Pai, vai ter presente pra mim?

- Vai sim, filho, mas só na noite do Natal. Papai Noel vai levar.

- E esses aí do saco?

- Esses eu vou levar pro Noel, que ele vai distribuir lá onde ele mora...

E o homem seguia arrastando o menino e seus sonhos. Até que ambos pararam ao lado de uma velha Kombi, cuja porta o homem abriu e por onde enfiou a árvore. Em seguida, tirou do saco de pacotes uma caixa embrulhada em papel colorido e amarrada com fita.

- Esse presente aqui eu dou pra V. agora, filho. Espera aqui na calçada, que o pai vai fazer funcionar a Kombi.

Rapidamente o homem conseguiu braços solidários que empurraram o veículo. Uma nuvem de fumaça branca envolveu a todos quando o motor deu a partida. Cabeça para fora da janela, o motorista acenou agradecendo e desejando feliz Natal a todos. Arrancou e desapareceu.

Enquanto isso, na calçada o menino era abordado por um guarda de trânsito e uma agitadíssima mulher gorda. O policial falou primeiro:

- Menino, cadê seu pai?

- Ele morreu.

- Morreu? - perguntou a mulher, indignada. - Não foi ele quem saiu ali naquela Kombi?

- Não senhora - respondeu o garoto. - Aquele homem eu nunca vi, ele só pediu pra eu vir com ele até o carro, chamando ele de pai. E que aqui eu ia ganhar um presente, mas me deu foi essa caixa vazia...

- Bandido! - desabafou a mulher. - Roubou os arranjos de Natal do shopping e ainda mentiu pra essa criança...

Vendo que fechavam um círculo em sua volta, o garoto deu um salto e também desapareceu no meio da multidão.

Na calçada, ficou a caixa vermelha enfeitada com laço de fita.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Natal


(Imagem: -liyen-)

Vem chegando o Natal! Que é de oferta e de precinho, de oportunidade e de sonho. Sonho de carro novo, de casa nova, móveis, relógios, perfume. Natal de liquidação e de presente barato, sem juros e com plano de pagamento que cabe em qualquer orçamento.

Cartão de crédito? Há olhares fixos em bolsas e carteiras, mãos ágeis na ousadia de surrupiar do outro o próprio Natal. Festa que também é de estatísticas e projeções do aumento nas vendas de tudo, em especial dos importados para a ceia. Bacalhau, castanha portuguesa, nozes... Porque Natal sem essas coisas não é Natal

Lá vem chegando o Natal! As ruas se enchem não apenas de consumidores, mas de surpreendente e inesperada população de pedintes, invisível em outras épocas do ano. A miséria então mostra a cara que discursos e estatísticas tentam esconder. O peditório se intensifica como nunca também fora das ruas. Doe, ajude, colabore, compareça, solidarize-se. Imole-se.

Pois vem chegando o Natal – temporada de churrascos, amigos ocultos e confraternizações. O político sai na frente e convoca a população do bairro X ao jantar dançante (de Natal), que ele patrocina. Mais adiante se tentará transformar muita solidariedade de ocasião em votos.

Brindes, luzes, risos e guizos. O que deveria ser conseqüência de corações renascidos na fé e no amor, no silêncio e na simplicidade, torna-se o centro da festa. E – desalento maior – há tempos sabemos disso. Com a alegria reduzida a quase nada pela deterioração da vida moderna, vemos atrelados ao som dos sinos de Belém o repique dos tamborins do carnaval. De folia em folia, lá vamos nós para a porta de entrada de um novo ano, quando tudo se fará para que anestésicos como o esporte rendam benefícios para a política. Ecos da noite de 25 de dezembro, só nos carnês de prestação.

Pobres de nós, resistentes em proporcionar ao próximo, começando por nós mesmos, verdadeiramente um Feliz Natal!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Companheiro



(Imagem: Ingrid0804)

Escalar aquela montanha era enfrentar obstáculo acidentado. Escalada relativamente longa, em dias raramente azuis. A moça subia devagar, o olhar fixo no alto. Gotas de chuva molharam seus olhos. Porque houve chuva e houve frio.

Não ia só. Em algum momento surgiu-lhe um cão de ar aristocrático, olhos vigilantes e raros latidos. Nada de rabos abanando ou lambidas na cara de sua dona. Olhava à frente com olhos de cão.

Avançavam pela encosta, ansiosos por descobrir o outro lado. A esperança puxava a moça, a solidariedade empurrava o cão. Alegrias de outros tempos ecoavam risos lá embaixo, onde tudo começara. Para ouvi-los, bastava voltar-se um pouco. Até que surgisse o cão, apenas sonhos tomavam a atenção da moça. “Sonhos não latem e nem lambem o dedão do pé da gente”, ela refletiria mais tarde. E também não são fiéis.

Ofegante, ela seguia em frente. Às indagações de olhos e orelhas do cão, a moça respondia com afago contido e sem sorrisos. Solidário e cúmplice, o companheiro de escalada apontava o focinho úmido para o topo, apurando o faro.

Chovia, quando o cão silenciou. Depois de enxugar o rosto, a moça afinal pressentiu que, chegando lá em cima, finalmente abriria um sorriso.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Decibéis


(Imagem:TrapezoidArt)

- Alô, Marina, é a Carol falando... Tudo bem? Ligo pra lembrar nossa reunião hoje... Que reunião? Ué, do movimento de boicote ao Shopping que começou a cobrar pelo estacionamento... Já esqueceu?

- Ai, meu Deus, esse passarinho... Que passarinho? É um danado que apareceu aqui na rua, faz uns dois meses. Começa a cantar às cinco da manhã e só fecha o bico à noitinha... Sei lá, Marina, que passarinho é... O Pistum disse que falaram pra ele que é sabiá-laranjeira. Pra mim, tanto faz sabiá-laranjeira, mexeriqueira, abacateiro – o que for. É um chato.

- Mas voltando à reunião: vamos deflagrar o movimento com uma passeata em frente ao Shopping e precisamos combinar as ações. Somos cidadãs, Marina, e temos que defender nossos direitos. Minutinho, amiga...

- Pronto, fui pedir ao Pistum pra baixar um pouco o som. Quem é o Pistum? Ô, Marina, não estou reconhecendo Você... Pistum é o meu filho Ricardo, que Você está cansada de conhecer. Ah, Pistum é porque lembra a sonoridade da marcação dos funks que ele vive ouvindo a toda altura, lá naquele quarto. Sai de lá não, minha filha, só pra ir à escola, tomar banho e comer. Peço pra maneirar o som quando estou ao telefone e à noite, na hora da novela. Fora isso, fica lá se divertindo. Melhor que perambular pela rua fazendo coisa que não presta, né não?

- Ô passarinho chato, gente! Xô, passarinho, xô... Ué, Marina, Você está rindo? O quê? Galinha? Fala mais alto... Galinha? Xô é pra espantar galinha... – é isso? Eu quero é ficar livre desse passarinho, porque eu acabo ficando doida com esse piu-piu-piu que não para. Vontade de soltar um foguete bem na copa daquela árvore... O quê? Ah, da reunião?

- Pois é, a gente vai elaborar os cartazes, designar a comissão organizadora do abaixo-assinado... Você vai, né? O quê? Fala de novo, Marina, eu não ouvi... Toda a frota de ônibus urbano do município passa aqui em frente. E ainda tem o barulho dos lixeiros. Parece que eles estão desmanchando o caminhão a marretadas, no meio da rua. Ô gente sem noção, cruz credo!

(Silêncio)

- Alô, Marina? Desculpe, é que fui até a janela, jogar um cabo de vassoura na copa da árvore pra espantar aquele raio de passarinho. Mas não tive força suficiente e o pau caiu bem na cabeça do carteiro, que atravessava a rua na hora. Maior mico, menina, tive que me abaixar pra não ser vista. Mas quanto à reunião... Alô, Marina.... Marina, alô, V. ainda está aí? Alô!

- Desligou. Também, com essa titica de passarinho azucrinando a cabeça da gente, não há cidadania que resista.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ilunga, Arikapu e Abigobel


(Imagem: troutfactory)

Existe em Nova Delhi, sul da Índia, um monumento carregado de mistério. Trata-se do Pilar de Ferro que, embora datado do século IV, acredita-se ter mais de quatro mil anos. Erguido para homenagear o rei Chandra, a peça é uma haste com 40 centímetros de diâmetro e 7,5 metros de altura.

Objeto de análises contraditórias (há quem o perceba imerso em escuro silêncio quanto às origens e à técnica utilizada para sua produção), o monumento sobrevive à língua – traço mais forte e capaz de preservar parcela insubstituível do conhecimento humano. Foi o que aconteceu em relação a idiomas como o Panônio, o Ligúrio, o Piceno, o Dácio, o Umbro e o Falisco. Deste, por exemplo, restaram cerca de 200 inscrições breves, procedentes dos séculos IV e III a.C. Em uma delas – foied uino pipato cra carefo – seu autor nos legou a solidão expressa no significado de uma frase triste: hoje beberei vinho, amanhã nada terei.

Segundo estudiosos, não é o desaparecimento das línguas que provoca surpresa, mas a velocidade com que essas mortes acontecem. Para que passe de uma geração à outra, uma língua deve ser falada por, pelo menos, 100 mil nativos. Há especialistas, no entanto, que crêem na extinção, antes do ano 2100, de algo entre 3 mil e 6 mil línguas em todo o mundo.

Desastres naturais, guerras e razões políticas são fatores importantes no desaparecimento de um idioma. Há alguns anos a Unesco considerava em agonia, entre outros, o udihe, falado na Sibéria; o eyak, no Alasca, e o arikapu, falado em algum lugar na Floresta Amazônica, no Brasil. Naquela ocasião, uma centena de pessoas falava o udihe, meia dúzia o arikapu e apenas uma – Marie Smith, então com 83 anos de idade – seria capaz de se comunicar em eyak.

Mas se morrem as palavras, há quem lhes capte os derradeiros sopros de vida, embalsamando-lhes depois os corpos. Fábio José Dantas de Melo, pesquisador do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, é desses assistentes de momentos últimos. Bidíta despundinar vudari – que significa chave – é uma das 407 palavras do dialeto de ciganos Calon, que vivem no interior de Goiás, reunidas em registro por Fábio antes que desapareçam.

O mesmo fez, no Rio Grande do Norte, o jornalista Luiz Gonzaga Cortez. Já deve ter sido editado o seu Dicionário Natalense das Palavras e Expressões Locais em Desuso, com vocábulos como anaia (pipa ou papagaio), banho de cuia (chapéu) e bunda canastra (salto mortal em água). Na contramão de Gonzaga, o também potiguar Kadmo Donato, bugueiro, já tem em segunda edição o registro de palavras nascentes por lá, como abigobel (leso, sem atenção), borréia (sem qualidade) e caningar (chatear).

Clarice Lispector referiu-se, certa vez, a um "espanar a poeira que se acumula sobre a linguagem". É também o que fazem os poetas, que acariciam palavras, tecendo com elas cantos capazes de levá-las através do tempo. Ainda que sejam palavras indevassáveis como as que compõem lista elaborada por uma empresa britânica, que relacionou as de mais difícil tradução, na opinião de mil tradutores profissionais.

É claro, saudade está na lista. Mas é apenas a sétima entre dez. A primeira e de tradução mais difícil é ilunga, da língua tshiluba, uma das quatro faladas na República do Congo. A palavra aplica-se a uma pessoa disposta a relevar qualquer maltrato a primeira vez, a tolerar a reincidência, mas a não suportar o tratamento pela terceira vez.

Apesar de tantas vezes maltratadas (haja vista o que se lê na internet, por onde chego a crer que o fim do idioma será antecipado), felizmente palavras não são ilungas. E, caso ocorra sua extinção plena, derrotada por bips, grunhidos e balbucios indecifráveis, ainda assim sobreviverá a que mais se emprega em todo o mundo: a palavra eu.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Sopro e a Luz


(Imagem: onkel_wart)

“Quando a exposição de Paris fechar, ninguém mais vai ouvir falar em luz elétrica.” (Erasmus Wilson, professor da Universidade de Oxford, 1879)

“Estou apto a suspeitar que todas as espécies humanas são naturalmente inferiores aos brancos.” (David Hume, filósofo empirista, 1766)

“Pelos meus cálculos, o mundo vai acabar em 1950.” (Henry Adams, historiador norte-americano, 1902).


Pobre sabedoria, a nossa!

Numa conversa entre os geniais pintores Edouard Manet e Claude Monet, ocorrida em 1864, o primeiro recomendou ao segundo, referindo-se a Auguste Renoir, então com 23 anos de idade: “Esse rapaz não tem o menor talento. Diga a ele para parar de pintar”. Manet negava talento a Renoir, apesar dele próprio, um ano antes, ter sido recusado por um corpo de jurados conservador, que novamente lhe fecharia as portas do Salão de Paris um ano depois. Somente após sua morte, em abril de 1883, em Paris, Edouard Manet teria reconhecido seu valor como artista. Edgar Degas, seu amigo, confessou que desconhecera, até então, a grandiosidade do talento de Manet.

Thomas Gilovich, professor de Psicologia na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, afirma em seu livro How We Know What Isn't So, que mais de 90% dos professores universitários julgam-se melhores do que seus colegas no trabalho. Quanto aos estudantes, 25% acham que estão entre o 1% dos mais qualificados na facilidade de se relacionarem. E se o assunto é capacidade de liderança, 70% se consideram acima da média, contra apenas 2% dos que batem no próprio peito e reconhecem estar abaixo desse índice.

Do campo pessoal para o da Ciência, os 'furos' podem não ser tantos nem tão visíveis, mas a escuridão de nossa ignorância surpreende e inquieta. Há pouco mais de uma década, uma publicação francesa reuniu 16 sábios e lhes pediu que, nas mais variadas áreas do conhecimento humano, respondessem sobre o que não sabemos. De lá para cá a Ciência avançou, mas está longe de reduzir nossas trevas.

Paleontólogos vêem confusa a origem do homem, e admitem que a árvore genealógica das espécies não para de se ramificar. No campo da Virologia, uma doença complexa como a Aids encontra-se envolta em interrogações. E na Astrofísica? Hubert Reeves, professor no Departamento de Física da Universidade de Montréal, lembra que as simulações matemáticas dos cientistas mostram que, tivesse sido mudada apenas um pouquinho uma das leis que governam o Universo, este permaneceria no caos. E enquanto o próprio Universo mudou consideravelmente, essas leis, porém, não mudaram ao longo do tempo. E pergunta: “De onde vem essa magnífica coerência? Qual é a tábua dessas leis?”

Que dizer então da Antropologia, que pouco sabe sobre o sistema de parentesco adotado pelas sociedades nas diversas partes do mundo? Da Biologia da Reprodução, que desconhece as razões para a divisão do ovo? E da Geofísica e Geodinãmica, que ainda não nos dão respostas que nos possibilitem prever terremotos?

Edouard Zarifian, professor de psiquiatria e psicologia médica, confessou certa vez viver num ambiente onde a maior parte de seus colegas só tem certezas. “Evidentemente, é uma forma de proteção”, continua ele. “Confessar a própria ignorância é considerado um erro profissional – daí a proliferação de um falso saber que tem respostas para tudo, a fim de esconder nossas interrogações”.

Etienne Baulieu, professor francês de medicina, quase repete Zarifian e reconhece que "nossa ignorância se estende a tantos aspectos que não poderia nem numerá-los". E cita apenas três: a reprodução das espécies, o sistema nervoso e o envelhecimento.

No campo da Neurobiologia, muito se ignora sobre a evolução do cérebro. Principalmente se se considerar que a diferença genética entre o chipanzé e o homem é de apenas 1% do conjunto das seqüências do genoma – diferença que, para o professor Jean-Pierre Changeux, “permitiu o aprendizado por epigênese (não genético), a abertura ao meio ambiente, a linguagem, a cultura – em suma, o que encerra a especificidade humana.”

Na História das Religiões, da Arte e da Literatura; na Egiptologia, na Literatura grega e na Lingüística – em tantos outros campos nossa ignorância é tão avassaladora, que seria desanimador tentar dissipá-la, não fossem a curiosidade e, sobretudo, a esperança humanas. Para o astrofísico Hubert Reeves, a grande pergunta é também metafísica: de que serve a longa evolução do Universo, que se estrutura até fazer aparecer essas maravilhas que são os humanos, seres evidentemente incapazes de viver juntos e bem capazes de se auto-aniquilar?

Descrentes – e tantas vezes inchados de pobre sabedoria – escapam-nos palavras como as do salmista: Verdadeiramente, o homem é apenas um sopro.