quinta-feira, 18 de maio de 2017

Teleburrice


(Imagem: Fran Carneros, em Pinterest)

Houve um tempo – e nem está tão distante assim – em que, para uma agência de publicidade, o cliente era rei, e seu mercado, um reino sagrado. Desdobrava-se, dava-se a cara a tapa, engoliam-se sapos de todos os tamanhos para manter a conta e ver o sorriso de satisfação na cara de quem, na visão de Ogilvy, fazia tilintar a caixa registradora.

Esse tempo virou passado. Salvo as exceções de praxe e que confirmam a regra, o que se percebe repercute como rispidez e falta de profissionalismo de parte a parte. Insinua-se nesse cenário uma espécie de vale-tudo, onde o que forra o chão da arena é o pobre consumidor sobre quem, excluído o bolso, se pisoteia à vontade.

No Brasil, consumidor e eleitor se aproximam nas dores e nos desencantos. Sobre o lombo de ambos costumam desabar as chibatadas da mentira, da manipulação e do desrespeito. Tudo estimulado por leis que não pegam ou, se pegam, são contornáveis como a lengalenga fácil com que se distrai uma criança de sua teima.

Estas considerações vêm a propósito de algo denominado telemarketing – uma ferramenta transformada em arma de destruição da imagem de quem não se importa com o desconforto que proporciona ao cliente. Aliás, o objetivo parece ser esse mesmo: azucrinar, irritar o cidadão que paga as contas até vê-lo pelas costas. Maneira eficaz de atacar a concorrência, desafiando o mercado prisioneiro de pegadinhas nas quais tropeça o pobre consumidor. E, como tantas vezes se tem visto, sob as bênçãos da autoridade complacente e cercada de burocracia, cuja disposição para aplicar sanções aos grandes faz lembrar aquelas espingardas que cuspiam uma rolha amarrada num cordão preso ao brinquedo.

Há cerca de 120 dias venho desatendendo e anotando, pacientemente, números que ligam para minha casa, assim como datas e horários em que acontecem as chamadas, com intervalos que chegam a até dois minutos entre uma e outra. E se dou publicidade a um determinado número, as ligações passam a acontecer temporariamente a partir de números diferentes – códigos binários e combinações de 11, 12, 13 e até 14 dígitos. Atendida alguma chamada, ou desligam, ou a fonte é identificada como banca de telemarketing que liga em nome de determinada empresa. Colocada em pesquisa do Google, uma combinação numérica levou a site de reclamações onde o nome que aparece é o de operadora de telefonia.

Se há um código de ética a ser seguido e leis a serem respeitadas pelo telemarketing, isto não está valendo – e não é de hoje, a julgar pelas operadoras que lideram o ranking das reclamações junto aos Procons.

Pergunto-me então que tipo de profissional de comunicação (se é que existe) estaria atendendo essa gente...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mudança

(Foto. Mariana Pietrobon)




Mariana publica em rede social, foto da bagagem que leva de mudança para outra casa, outro esconderijo para seus sonhos e sua solidão, suas lembranças e suas saudades. Diz que segue para um destino feliz, deixando para trás um lugar onde não foi muito feliz, nem muito triste.

Mudar-se é também deixar e carregar saudades. Casas vazias se parecem um pouco com ferrovias: evocam histórias, dizem de mudanças. Sobretudo quando se vai como Mariana, de quem sei de lágrima recente.

Os dias contam que não ser muito triste já equivale a ser feliz. Até porque, à exceção de Deus, nada e ninguém é perfeito.

O casal de velhos meus vizinhos anunciou que partiria de volta à terra natal, no Nordeste. Passa o tempo, e a permanência de ambos por aqui ganha jeitão de mudança – mas de planos. O que ao menos retarda a visão de uma casa silenciosa e vazia, onde tantas vezes a família se reuniu em alegres celebrações.

Mudança é ainda recomeço que faz morrer aos poucos tristes lembranças, transformando dores em chama de luminosa esperança. Este, o rastro que deixamos e que vale a pena ser seguido.

Antevejo o adeus de Mariana. Já lhe percebo as pegadas em flores coloridas, que ela diz retirar das lições e percalços da vida.

Aceno então de coração para aquela que, espero, seja a mais feliz das Marianas.



sábado, 29 de abril de 2017

Horizontes

(Imagem: Pinterest)


Atingida pelo tsunami de 2004, uma pequena cidade japonesa proporcionou naquela ocasião uma cena curiosa: um sobrevivente da catástrofe, de olhos fixos na linha do horizonte sobre o mar, mantinha-se vigilante tendo ao lado, imóvel, um seu semelhante. Encharcados ambos, o primeiro achegou-se ainda mais do outro ante a aproximação do cinegrafista.
Os dois personagens eram cães. O 'guardião' trazia no pescoço uma coleira e, por trás do focinho, um olhar de cão sem dono. A narração dava conta de que os animais seriam encaminhados a local apropriado, onde receberiam os cuidados necessários.
Naquela mesma semana outro cão protagonizaria cena notável, desta vez no Brasil. Assassinado provavelmente por grupos de extermínio que a polícia paulista ainda investigava, Cabeludo, um morador de rua, teria aos pés de seu cadáver um cachorro que não apenas impediria que alguém se aproximasse, como tentaria reanimar o dono lambendo-lhe as pernas.
O notável estreitamento no convívio entre seres humanos e seus animais de estimação cutuca a imaginação: acaso o fenômeno não seria também resultado do crescente desencanto com nossos semelhantes? Pesquisas já apontaram a existência de mais clínicas veterinárias do que hospitais no país. Igualmente vigorosa é também a expansão do setor de pet shops, e é possível que jamais se tenha dado tanta ênfase a campanhas em favor da adoção de animais como hoje.
Pela média, os anos de uma vida humana deixam atrás de si assustadora devastação na natureza. E isto inclui animais, de estimação ou não. Porém mesmo podendo pouco em relação à imprevisível e dominadora criatura, eles acabam tendo seu dia de caçador.
Ao tentar imitar um lobo em representação teatral, um estudante alagoano levaria acidentalmente um tiro do amigo que interpretava o caçador.
Procurando aninhar-se, uma galinha faria disparar uma espingarda abandonada pelo dono na localidade de Acarigua, na Venezuela. A bala atingiria o pulmão do descuidado, cujos revoltados familiares se vingariam da penosa mandando-a para a panela.
Cientistas asseguram que o futuro será dos insetos. Até lá, seguimos tentando nos comunicar melhor com os animais. Já se criou no Japão, aparelho que capta e interpreta latidos e outros sons de um cão, enquadrando-os nas categorias feliz, triste, de prontidão, frustrado, carente ou assertivo. Definido o estado emocional do totó, uma frase pertencente àquela categoria é selecionada aleatoriamente e exibida numa tela.
Pendurado no pescoço de outros animais, ou preso a galhos de árvores da Amazônia, o equipamento certamente exibiria na telinha um pedido de socorro.

(Repost - Editado)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A baleia e o ciclista

(Imagem: Pinterest, do álbum de Eliza Gramlich)

Republiquei há algum tempo neste Pretextos-elr sobre o desabafo de um médico do estado do Rio que, no longínquo ano de 1988, assistiu pela tevê uma mulher morrer à porta de um hospital público, onde os médicos faziam greve. Instadas a tomar providências em caso de urgência, as enfermeiras negaram ajuda enquanto, protegidas atrás de grades, limitavam-se a gritar que não eram médicas.

Três décadas depois, pouco mudou. Só a marca do egoísmo que caminha conosco, denunciado por aquele médico carioca, é a mesma. Os exemplos são recorrentes, e o mais recente nos chega também pela tevê, que mostra o desespero dos familiares de uma paciente em crise, à qual foi negado atendimento em uma unidade pública de saúde de Ribeirão das Neves, Minas Gerais. Motivo: os médicos estavam em greve pela falta do pagamento de seus salários.

Parece inútil implorar socorro diante de uma vida humana que se esvai. Nada comove ou chama à razão quem administra mal os recursos destinados a garantir retorno ao cidadão que paga impostos. Assim como as próprias urgências de bolso, é preciso ainda satisfazer a goela que alardeia o que o caráter do sujeito não o deixará cumprir.

O perigo que nos ameaça não é a baleia azul, mas o oceano de indiferença que escolhemos para navegar em canoa furada. Além de garantir espaço na mídia, dá mais ibope o gato de rua que mobiliza um prédio inteiro em solidariedade. Assim como a tartaruga maltratada ou o pato atropelado que ganha prótese especial. A era não é só do egoísmo, mas do bicho.

Encarapitar-se na própria soberba ou tangenciar, em despreparo, a sombra do Poder, é tantas vezes suficiente para desprezar o indivíduo e ignorar sua dignidade. Pessoa é gente. E gente é conjunto, é povo. E povo é massa.

Invisível como ciclistas no meio do trânsito.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Carochinha revisitada

(Imagem: Pinterest)

Há mais de um século era lançado no Rio, pela Livraria Quaresma, o livro Contos da Carochinha – considerado o primeiro texto da literatura infantil escrito em português do Brasil, compilado e redigido pelo jornalista Alberto Figueiredo Pimentel.

No tempo da Inquisição, denominava-se carocha uma espécie de mitra extravagante que os condenados eram obrigados a ostentar, a caminho do suplício. A palavra chegou às salas de aula para identificar uma carapuça de papel, posta como castigo nos alunos que se comportavam mal. Além de outros significados pouco relevantes, carocha era também sinônimo de bruxa ou bruxaria e, na literatura, acabou se transformando em denominação de narrativa fantasiosa – uma mentira. O diminutivo do vocábulo – carochinha – foi dar em título do livro em questão.

Em outubro de 1930, a mesma editora lançou Histórias da Avosinha, obra com 370 páginas e 131 gravuras desenhadas por Julião Machado. Em uma das estórias, intitulada “O bom juiz”, o personagem Zenobio é “empregado da Limpeza Pública”, e porque “necessitava sustentar numerosa família, trabalhava alegremente, sem se importar com os tolos preconceitos sociais”.

Em uma de suas varreduras, o personagem encontra uma carteira recheada com muito dinheiro da época – cem mil réis. Depois de algum empenho, o homem consegue localizar o dono do achado – um comerciante avaro que, diante do delegado, acusa injustamente o gari de ter surrupiado 10 por cento daquela quantia. Convicto da honestidade do trabalhador, o juiz então determina que o mesmo fique com a carteira e o dinheiro, uma vez que a vítima alegava ter perdido cem mil réis, e não noventa mil.

Passadas mais de oito décadas, os contrastes da narrativa são tão evidentes quanto cruéis. Nenhum gari, para sustentar 'numerosa família' com seu salário, trabalhará alegremente, sem se importar com os preconceitos sociais. Caso encontre uma carteira recheada de reais, euros ou dólares (e decidindo-se por sua devolução ao dono), não passará por uma delegacia de polícia e muito menos por um juiz, mas acabará virando notícia na tevê que, para garantir audiência, emprestará ao fato a pieguice habitual. A par da fama instantânea e fugaz, nosso herói terminaria em Brasília, com direito a audiência na Presidência da República. E é lá, nas vizinhanças do Palácio do Planalto, na contramão das honras que se prestaria à Honestidade, é que, hoje, homens do governo tentam justificar o injustificável – atos secretos que nomeiam, criam despesas e trazem à tona revelações que fariam corar o abajur do justo juiz de Histórias da Avosinha.

Como nada se perde (ou deveria se perder, em se tratando de experiência), a carapuça de papel nos ficaria bem. Esconderia nossa indiferença, fazendo-nos passar por envergonhados diante de tanta desfaçatez. A carocha-bruxa já existe, e vez ou outra se solta no cenário oficial da Capital, espalhando-se pelo país e chegando a governos estaduais e prefeituras.

Da carochinha mesmo seriam discursos e declarações oficiais que ouvimos, nos quais ainda há quem insista ou finja acreditar.

(Reeditado - Repost)

domingo, 2 de abril de 2017

Bla bla bla

(Imagem: Pinterest / Sainer)


É favor que não me façam ver sorrisos de cinismo e escárnio, nem ouvir discursos e declarações que sublinhem históricas necessidades e veteranas urgências nacionais. Não quero ouvir promessas rasas, às quais uma coreografia teatral tenta emprestar ênfase e credibilidade.

Cansei de ler frases feitas, com acusações e suspeitas sobre isso e aquilo, assim como afirmações que não se confirmam e desmentidos que se desmentem. Pressinto o adiamento reiterado de uma justiça que, anunciada, surge tímida, para sair de cena aos poucos, de fininho. À francesa, como se dizia.

Desnecessário que se reiterem monótonas e repugnantes notas de esclarecimento que não esclarecem, assim como a existência de prazos quase infinitos para a defesa do indefensável. Também não me interessa a repetição sonolenta da voz oficial, que transmite e oficializa a morosidade que escala o tempo como um bicho preguiça.

Por favor, parem de repetir que calúnia e difamação serão desmascaradas pela verdade – palavra que rasteja em andrajos, sem fôlego e sem crédito. Ao contrário de outras, como pensática por exemplo. Oculta no anonimato e, ao que parece, distante de qualquer definição etimológica (atenção, escritor e diplomata Marcelo Cid!), uma sua assemelhada – a palavra solucionática –  já se aproxima dos dicionários.

Tendo alcançado esta altura dos rogos que faço, sugiro que mandemos ao descanso merecido a palavra preconceito. Sem fôlego, a pobre coitada anda de queda em queda aqui e ali, despertando olhares incrédulos e duvidosos.

Mais do que falar em esperança, tratemos de induzi-la e justificá-la às gerações que vem vindo.

Porque elas não precisarão, nem de mitos, nem de heróis.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Lágrima possível

(Imagem: Pinterest)

O velho que morre num quarto de hotel, esquecido e só, é imagem cinematográfica e persistente. É a ela que recorro, indagando se não deveríamos trazê-la viva na memória. Uma tentativa de nos aquecermos por dentro, evitando a pedra em que nossas urgências vão nos transformando.
O escritor Chico Lopes é quem nos traz essa palavra aflitiva. Nada lhe parece mais tenebroso do que uma morte solitária. Há velhos que morrem assim em quartos de hotéis, em filas de desassistidos, sob as pontes, nos asilos, nas casas de repouso, nos hospitais. Tantos passam pela vida sem deixar rastros, lembranças, sinais. Sem deixar nada. Vão como vieram: anônimos e sós, completamente sós.
Pesquisa feita em Portugal revelou que é em épocas festivas, como Natal e fim de ano, que pessoas costumam abandonar seus velhos em asilos e hospitais. Adiam um incômodo resgate de forma a usufruírem, com tranqüilidade e sem atropelos, os momentos de celebração e alegria. É como o sujeito que não quer se aborrecer no feriadão porque não pagou a prestação vencida. Isto é assunto para se enfrentar na retomada da escravidão, nos dias cinzentos de trabalho. Isto é assunto de segunda-feira.
Existem tantas definições, tantos rótulos para esse mistério insondável que é a vida. Há sabedorias que a definem como escolhas, momentos, recomeços. Dizem também que vida são acertos e erros, opiniões, oportunidades, som e luxúria, caminhos... Mistério que se banaliza num mundo de 'pequenos nadas', onde somos levados a valorizar ícones e paixões. O menisco estourado do craque da bola vale muito mais do que a experiência e a vida do tal velho que morre solitário num quarto de hotel.
O mercado olha para o idoso com arremedo de comiseração, entrevendo uma fresta para vender excursão, remédio e empréstimo consignado. Fora isso, velho é dor de cabeça. O analgésico é levá-lo para a fila dos maiores de 60 anos. Ou dar-lhe passagem gratuita no transporte urbano. Benesses, favores ao invés de reconhecimento e respeito.
São ruidosos os guizos que a TV agita ao nosso redor. Eles nos fascinam e nos inebriam. Fazem-nos esquecer nossa finitude, tão certa e pronta. Nosso amanhã de provável solidão. Na telinha, nossos dramas são, a um só tempo, glamurosos e voláteis. Passados poucos dias do último capítulo, e já não seremos capazes de nos lembrar do título da novela. Logo virá outra, e outra...
E se em alguma delas nos depararmos com o tal velho solitário morrendo num quarto de hotel, aí, sim, talvez a cena nos arranque alguma lágrima.

(Repost - Reeditado)