Pulsos algemados
para trás e cabeça abaixada para esconder o rosto, o assaltante que acabara de
ser detido, junto com outros comparsas, pela prática de um latrocínio, declarou,
diante do microfone da emissora de TV, que a sociedade brasileira tinha mesmo
que continuar sendo roubada. E justificou, numa espécie de pedagogia absurda,
que ela, a sociedade, mesmo alertada, continuava praticando os mesmos erros –
ou as mesmas facilidades – para que ele, ladrão, exercesse com liberdade a sua
atividade criminosa.
Quando a polícia não
age ou age mal, e a sociedade, atemorizada, se tranca atrás de grades para
tentar se proteger, a liberdade que está sendo respeitada é a do infrator. Da
mesma forma quando se cala, assustada pelo alarde de movimentos nem sempre
muito claros quanto às suas intenções ou às suas origens.
A votação da hoje
conhecida Medida Provisória dos Portos – matéria complexa e técnica, trazida às
manchetes como se de sua aprovação imediata dependesse o futuro do país e de
sua gente – revelou que discursos não podem ser levados sempre a sério. Até
porque há mais substância afinada com o faça-o-que-eu-falo-mas-não-faça-o-que-eu-faço,
do que propriamente com a sinceridade e correção de propósitos. Só para ficar
em um exemplo, não houve qualquer constrangimento da base governista em aprovar
uma emenda à tal medida, dias antes patrocinada pela oposição, mas então
tachada e rejeitada como imoral. As bochechas da base aliada nem se ruborizaram,
diante da comprovação de que a proposta reapresentada à Mesa da Câmara dos
Deputados fora tão grosseiramente fotocopiada da outra, que sequer eliminaram-se
por completo as assinaturas de parlamentares da oposição no documento ‘original’.
Não é a coloração
ideológica o que se considera aqui, mas a postura. Melhor: a compostura. Da
mesma forma os sanguinolentos e inverossímeis noticiários policiais da TV, que
defendem a instauração da pena de morte no país e, repetindo à exaustão cenas e
narrativas de casos escabrosos, não dão a mesma ênfase, por exemplo, ao
desencorajar populares de fazer justiça com as próprias mãos. Na última semana
em São Paulo, a casa de um suspeito de participar do estupro e assassinato de
uma menina de oito anos foi invadida e depredada, tendo móveis e utensílios
sido atirados no meio da rua e ali incendiados. Tudo isso à vista dos ocupantes
de pelo menos sete viaturas da polícia.
Mau sinal. Se de
cima, de onde deveria proverbialmente vir ‘o bom exemplo’, não tem vindo coisa
boa, então se compreende porque um jovem e talentoso humorista tenha declarado
que fazer humor ‘é ferir a moral e os bons costumes’. Mas por quais outras vias,
em síntese, a não ser pela degradação moral, a convivência e a prática de maus
costumes, se pode chegar ao crime? Quando o cidadão, em nome de seu umbigo,
atira janela afora a parte que lhe toca nas responsabilidades de preservar não apenas
a sua própria liberdade, mas também a da sociedade em que vive, então é a
pedagogia daquele assaltante que teremos de suportar. E – pior: fazê-lo diante de
sorrisos de cinismo trocados entre os comparsas detidos, que mal conseguem se
conter até o dia de voltarem às ruas.
O país tem
assistido, com verdadeiro horror, a escalada da violência. Agora, assassinatos,
sequestros e estupros são perpetrados não raramente com acentuadas características
de brutalidade, covardia e perversidade.
Imaginar que, apesar
de tudo isto, se possa fazer humor ferindo a moral e os bons costumes é, quando
nada, a mais absoluta falta de graça.






