domingo, 19 de maio de 2013

Pedagogia do riso

(Imagem: Flickr, do álbum de Sarah Jarrett)

Pulsos algemados para trás e cabeça abaixada para esconder o rosto, o assaltante que acabara de ser detido, junto com outros comparsas, pela prática de um latrocínio, declarou, diante do microfone da emissora de TV, que a sociedade brasileira tinha mesmo que continuar sendo roubada. E justificou, numa espécie de pedagogia absurda, que ela, a sociedade, mesmo alertada, continuava praticando os mesmos erros – ou as mesmas facilidades – para que ele, ladrão, exercesse com liberdade a sua atividade criminosa.

Quando a polícia não age ou age mal, e a sociedade, atemorizada, se tranca atrás de grades para tentar se proteger, a liberdade que está sendo respeitada é a do infrator. Da mesma forma quando se cala, assustada pelo alarde de movimentos nem sempre muito claros quanto às suas intenções ou às suas origens.

A votação da hoje conhecida Medida Provisória dos Portos – matéria complexa e técnica, trazida às manchetes como se de sua aprovação imediata dependesse o futuro do país e de sua gente – revelou que discursos não podem ser levados sempre a sério. Até porque há mais substância afinada com o faça-o-que-eu-falo-mas-não-faça-o-que-eu-faço, do que propriamente com a sinceridade e correção de propósitos. Só para ficar em um exemplo, não houve qualquer constrangimento da base governista em aprovar uma emenda à tal medida, dias antes patrocinada pela oposição, mas então tachada e rejeitada como imoral. As bochechas da base aliada nem se ruborizaram, diante da comprovação de que a proposta reapresentada à Mesa da Câmara dos Deputados fora tão grosseiramente fotocopiada da outra, que sequer eliminaram-se por completo as assinaturas de parlamentares da oposição no documento ‘original’.

Não é a coloração ideológica o que se considera aqui, mas a postura. Melhor: a compostura. Da mesma forma os sanguinolentos e inverossímeis noticiários policiais da TV, que defendem a instauração da pena de morte no país e, repetindo à exaustão cenas e narrativas de casos escabrosos, não dão a mesma ênfase, por exemplo, ao desencorajar populares de fazer justiça com as próprias mãos. Na última semana em São Paulo, a casa de um suspeito de participar do estupro e assassinato de uma menina de oito anos foi invadida e depredada, tendo móveis e utensílios sido atirados no meio da rua e ali incendiados. Tudo isso à vista dos ocupantes de pelo menos sete viaturas da polícia.

Mau sinal. Se de cima, de onde deveria proverbialmente vir ‘o bom exemplo’, não tem vindo coisa boa, então se compreende porque um jovem e talentoso humorista tenha declarado que fazer humor ‘é ferir a moral e os bons costumes’. Mas por quais outras vias, em síntese, a não ser pela degradação moral, a convivência e a prática de maus costumes, se pode chegar ao crime? Quando o cidadão, em nome de seu umbigo, atira janela afora a parte que lhe toca nas responsabilidades de preservar não apenas a sua própria liberdade, mas também a da sociedade em que vive, então é a pedagogia daquele assaltante que teremos de suportar. E – pior: fazê-lo diante de sorrisos de cinismo trocados entre os comparsas detidos, que mal conseguem se conter até o dia de voltarem às ruas.

O país tem assistido, com verdadeiro horror, a escalada da violência. Agora, assassinatos, sequestros e estupros são perpetrados não raramente com acentuadas características de brutalidade, covardia e perversidade.

Imaginar que, apesar de tudo isto, se possa fazer humor ferindo a moral e os bons costumes é, quando nada, a mais absoluta falta de graça.

domingo, 12 de maio de 2013

O cochilo de Deus

(Imagem: Flickr, do álbum de sascalia)


Desde que foi instituído na sua forma atual (há 116 anos nos Estados Unidos, e há 81 no Brasil), o dia dedicado às mães cutuca emoções e sentimentos, provoca reflexões e orações. E, no geral, vai dar em homenagens, almoços festivos e, claro, em extraordinário faturamento para o comércio. Este, aliás, foi o motivo pelo qual a metodista norte-americana Anna Jarvis, idealizadora da data, afastou-se do movimento que iniciara, lamentando sua criação e lutando para a abolição do então feriado de 8 de Maio.

A adoção da prática no Brasil foi decidida pelo presidente Getúlio Vargas em 1932, e certamente terá sido precedida pelo tilintar das caixas registradoras norte-americanas. O que em nada compromete a melhor inspiração de uma data que ainda se presta a homenagear aquela que, entre dores, limitações, apreensões, encantos e desencantos, nos trouxe ao mundo chorando, segundo Shakespeare, por nos vermos nesse imenso palco de loucos.

Já se disse que Deus, quando quer tirar um cochilo, deixa as mães em vigília. Ao coração sem fé talvez pareça que Ele ande mesmo cochilando além da conta. A inclemência dos tempos tem faces variadas, dentre elas a de mães que matam, agridem, vendem, doam e até abandonam filhos numa lixeira. Nesses casos, os frutos da miséria humana ultrapassam os do amor materno, que luta bravamente para sobreviver onde predominam exigências da sociedade moderna. Livres do avental-todo-sujo-de-ovo, mães do nosso tempo se dividem entre a proverbial ‘vigília’ e o que a evolução dos tempos lhes impõe. Com isto, cada vez mais se transfere à escola a responsabilidade pelo essencial beabá com que se iniciam os primeiros passos de vida.

Cá entre nós: mães é que são autoridade em amor materno. Ainda assim há filhos que as maltratam e abandonam neste ‘palco de loucos’ – para muita gente, o único e verdadeiro paraíso.

Se Deus de fato cochila, provavelmente seja por misericórdia só. Com um olho entreaberto deve nos vigiar, e com o outro, cerrado, finge não perceber o vulto que andam tomando as barbaridades e os crimes que cometemos. E assim nos perdoa, sem levar em conta a imensidão de nossas faltas.

Esta, a esperança que trago comigo e manifesto neste Pretextos-elr, encorajado desde sempre por minha mãe, falecida há pouco mais de uma semana. Ela completaria 91 anos de idade hoje, dia 12. Seria, portanto, duplamente festejada.

Às mães que me lêem, o abraço de esperança e fé – nosso melhor legado.

sábado, 4 de maio de 2013

O chocalho da cascavel

(Imagem: Flickr, do álbumk de skinnylaminx)

Não sei se já me referi aqui à gravura que existia numa grande agência de publicidade onde trabalhei, no Rio. Posicionada estrategicamente em ponto de passagem obrigatória no corredor de acesso às salas, o desenho reproduzia cenário de caos inimaginável. Via-se ao fundo um horizonte tempestuoso, onde raios fulminavam árvores, prédios em chamas desabavam e pessoas saltavam das janelas para o vazio.

O foco do desenho, no entanto, estava em dois sujeitos (provavelmente publicitários) que, na crista de uma onda gigantesca, tentavam sobreviver remando um barquinho de nada em mar revolto. A fragilidade da embarcação era tanto mais evidente quanto mais se notavam os detalhes da cena. Certo de que sobreviveria àquele apocalipse, o homem  que empunhava os remos trazia no rosto um sorriso, enquanto dizia ao outro: ‘Um dia, ainda vamos rir de tudo isto’.

Aplicada a cena à nossa realidade, é possível que a maioria não fosse tão otimista na casca de noz em que hoje navegamos. Mas a frase certamente estaria (como deve estar) na boca de quem segue viagem em transatlântico confortável, tripulado pelo poder, pelas benesses, pelas imunidades, pelas impunidades e pelas mordomias.

Exemplo: não há como supor que, sob a mira do assaltante, alguém se lembre de que aquele acontecimento lhe provocará sorrisos no futuro. A não ser na eternidade. O mesmo se aplica a tantas situações outras que flagelam o cidadão e eleitor-contribuinte no dia a dia. Esteja ele arrependido ou ainda a caminho do arrependimento.

O que assusta tanto quanto o cano da arma, é a lengalenga do discurso, a malemolência que se apega à lei, cujos aperfeiçoamentos se escondem pelas gavetas a título de moedas de troca para satisfazer interesses de ocasião.

Mas... continuemos a remar! Afinal, vem chegando aí a caxirola – bugiganga que leva o selo permissionário da entidade que tem poder até para afastar o acarajé por quilômetros do estádio onde se realizarão os jogos na Bahia. Seu custo foi anunciado em torno de 30 reais – o valor da vida daquela dentista assassinada em São Bernardo do Campo. É verdade que a insatisfação de torcedores fez chover o tal objeto nos gramados onde se realizaram eventos-teste, na capital baiana...

Se não for banida dos estádios, nas mãos de turistas, convidados, autoridades e poucos sortudos, a caxirola promete sonorizar muitas olas coreografadas durante os eventos esportivos que se anunciam. Um longo e repetido som de chocalho. 

Como o da cascavel, que alerta e prenuncia o bote.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Fiscalização


(Imagem: Flickr, do álbum de *Pano de Fundo*)



Maré ruim, a do supersticioso Peixoto. Fiscal da prefeitura, perdera pela segunda vez uma promoção. Além disso, a mulher o abandonara e, ainda por cima, fora escalado para um plantão justamente no dia em que reuniria os amigos para um churrasco.
A caminho do trabalho, viu na praça a barraca de uma artesã que vendia enfeites, cujo motivo eram galinhas confeccionadas em tecido pontilhado de branco. ‘Galinha carijó’, pensou. Lembrando-se de ter ouvido a respeito de sorte associada àquele tipo de ave, comprou logo dois exemplares do artesanato. Usaria ambos em casa – um na sala e outro no quarto.
No dia seguinte, já na repartição, o chefe anunciou batida para fiscalização nas barracas de ambulantes. Ele que se apressasse, pois a operação ia ser imediata.
- Não vamos dar moleza não, Peixotão! Pega pesado mesmo com essa cambada – recomendou o chefe.
- Deixa comigo, chefia! – tranquilizou um Peixoto seguríssimo e que, por precaução, já reverenciara as galinhas de pano antes de sair de casa.
A um quarteirão de sua mesa de trabalho, Peixoto deu com o primeiro infrator. O homem vendia bugigangas contrabandeadas, não tinha nota fiscal, licença da prefeitura e nem recurso suficiente para 'abrandar' a fúria fiscalizatória do Peixoto.
- Duas vezes sonhei que fugia de um fiscal nesta semana.... - choramingou o homem.
- Pesadelo, meu amigo! – provocou o fiscal, enquanto preenchia o auto de infração.
- Pois é. Quem mandou levar fé numa galinha? – rebateu o camelô.
Peixoto reagiu como se tivesse levado um choque. Galinha? Ele ouvira bem o que o outro havia dito?
- Isso mesmo, seu fiscal: ga-li-nha. Me deu foi azar, essa carijó de pano que eu comprei na praça... – disse o camelô apontando para o amuleto.
Depois de se certificar que seus colegas estavam providencialmente distantes, Peixoto segredou ao pobre coitado que ele tivera sorte, sim, pois sua multa seria desconsiderada daquela vez. O gesto de 'generosidade' fora, no entanto, só estratégia: e se, aplicando a multa ao outro, o Peixoto atraísse também para si a má sorte?
Mesmo sem entender nada, o infrator presenteou o fiscal, em sinal de reconhecimento, com um badulaque qualquer dos que oferecia. E aconselhou: ele que tivesse também em casa um enfeite com galinhas carijó de pano.
De volta ao posto de trabalho, fez-se o balanço da operação e constatou-se que muita gente fora autuada, ficando sem a mercadoria. Inclusive a tal artesã, vendedora dos enfeites com galinha carijó.
Que, aliás, de artesã não tinha nada. Tratava-se de um estelionatário travestido e procurado pela polícia por extorquir velhinhas de uma cooperativa.

(Repost)

terça-feira, 23 de abril de 2013

Especulações vocabulares

(Imagem: Flickr, do álbum de thinkroni)


Não se desfaz mais nada, hoje. Quem queira desmanchar, arrasar ou destruir algo com sucesso, terá que desconstruir. E com ferramentas orais e morais capazes de romper blindagem – palavra guerreira que saiu dos domínios da beligerância, mas foi sequestrada quando passeava em Brasília.
E é lá, no planalto que um dia foi sonho de Dom Bosco, que hoje se procuram agendas positivas – o que confirma a existência de seu contrário, as negativas, para a defesa de cujos efeitos há de se executar a tal blindagem. Se a medida não for suficiente, tira-se o alvo de cena ou do foco, confiando em que a proverbial amnésia nossa deixe correr o barco em águas que se quer tranquilas.
Se blindagem foi sequestrada em estado de êxtase por Brasília, inexperiência e teimosia tramaram ato tão vil, pois o vocábulo desprezou o conselho da palavra ética. Muito debilitada, ética está de saída, e leva na bagagem ecos de diálogos, declarações e ofensas tão inacreditáveis quanto inesquecíveis. Sai de cena – ou do foco – particularmente ressentida pelo abandono de sua companheira de tanto tempo em ambientes republicanos – a palavra conselho. Embora também sem credibilidade, conselho tem feito tudo para manter-se sob a luz dos refletores, fazendo concessões a finalidades inconfessáveis, em especial as que compõem as tais agendas negativas.
Sem popularidade, a palavra viés teve seus curtos momentos de relativa fama. Invejosa, tentou amizade com a velocíssima agilizar, uma veterana na arte de não deixar rastros. Dissimulada, agilizar não costuma mostrar-se inteira, e nas poucas vezes em que isto acontece, é vista circulando na penumbra e em ambientes restritos. Ainda assim, quem já tenha recorrido a ela nem sempre reconhece tê-lo feito, pois existem suspeitas de que a palavra não dê atenção apropriada à higiene pessoal, carregando com ela odores e manchas de subterrâneos por onde tenha circulado.
Nota-se adaptação rápida da insossa e manquitolante pré-sal ao clima do cerrado, lá por aquelas bandas do Distrito Federal. Apesar de dividida, essa jovem esvoaça com desenvoltura pelos ambientes palacianos, embora já tenha feito mais sucesso com longa agenda (positiva), voltada ao reconhecimento de todo cidadão brasileiro em qualquer metro quadrado do solo pátrio.
Das gêmeas valores, apenas permanece inarredável junto ao poder aquela cuja personalidade se caracteriza por forte apego às questões monetárias. Sua irmã – desprendida, generosa, voltada às questões morais e espirituais – há muito tem demonstrado preferência por lugares mais retirados. Não só em razão de seu desprestígio mas, sobretudo, porque onde há humildade é também possível encontrar suas parceiras, as palavras alegria e paz. 
Rumor muito forte tem espalhado inquietação a respeito do vocábulo justiça. Há observadores que apostam na sua clonagem maldosa, afirmando que a verdadeira já estaria em local incerto e não sabido, sob regime de recolhimento forçado. Outros porém dão como inconsistente esta versão. Dizem que justiça, na verdade, tem empenhado a maior parte de seu tempo em longa e penosa mudança para território geográfico ainda desconhecido.
Polêmicas e discussões à parte, parece haver consenso em relação à sobrecarga de responsabilidades sobre uma palavra que, maltratada e usurpada em sua dignidade, não consegue mais transferir respeito ao sujeito a quem deve nominar: a palavra eleitor. Esta, por sua vez, mal consegue enxergar lá no alto, servida por vassalagem e coroada de brilho, a palavra arrecadação e seu fidelíssimo escudeiro, o vocábulo imposto.
E cá de baixo, onde raramente aparecem os maiores e mais contumazes usuários da palavra eleitor, o sujeito ao qual esta palavra ainda serve com fidelidade não descobriu a quem despachar, com urgência urgentíssima, a incômoda e inquietante palavra socorro.

(Repost)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Botão de rosa


(Imagem: Flickr, do álbum de this fleeting life)

Almina se aprontou e por pouco não virou sobre a cabeça, ombros e braços, o vidro de perfume. Transformara-se na virtual Sombra de Dúvida para o também virtual Transparência – Jorge Caetano na vida real. Para ele, a nova amiga ficaria melhor sob os apelidos de Realidades Floridas ou Amor Esvoaçante.
Já a caminho da porta, a quarentona despediu-se da companheira de quarto:
- Deseje-me boa sorte, Inesita! É hoje que vou me deixar conhecer pelo Transparência.
- Cuidado, Mininha, esses papos de internet são perigosos...
Cuidado e analgésicos contra enxaqueca – eis as prioridades para Sombra de Dúvida. Há seis meses vinha cozinhando o apaixonado Transparência, num adiar sem fim do grande encontro. O rapaz não lhe conhecia o nome verdadeiro, nem endereço, local de trabalho... Não conhecia nada de sua fantasia.
- Não se esqueça do caso que aconteceu na Rússia... – insistiu Inês. - Lá, o sedutor Tesourão cortava os cabelos de suas vítimas, antes de assassiná-las por afogamento em uma bacia cheia de vodka Agiu assim com as últimas três mulheres que conheceu pela internet.
Almina pensou na qualidade da bebida russa, mas como o assunto não era para brincadeira, tranqüilizou a amiga ainda uma vez. Disse-lhe que marcara com Transparência no Bardo Kiko, mas observaria o rapaz de um ponto estratégico no Kikoça Bar, localizado do outro lado da rua. Transparência aguardaria Sombra de Dúvida na primeira mesa externa à esquerda, próxima ao muro. E como nunca haviam se visto em fotografia ou por webcam, cada um descrevera o figurino que utilizaria no encontro: ele, de camisa pólo vermelha, calça jeans preta e tênis. Ela, de vestidinho justo lilás, com enorme margarida estampada na lateral.
É verdade que Almina não tinha roupa com estas características. Iria mesmo vestida de calça jeans, blusinha amarela, tênis e de cabelos descoloridos (Transparência achava que ela era morena de cabelos castanhos, compridos e lisos). Ela e a amiga riram muito, mas concluíram que tudo se justificava pela precaução contra ‘a bandidagem da internet’.
A caminho do encontro, a mulher deu com uma aglomeração junto a três carros de polícia. Ouviam-se gritos e assobios. Havia gente na ponta dos pés e de pescoço esticado. Sombra de Dúvida então soube que o motivo fora a prisão em flagrante de um estuprador procurado pelas autoridades. Surpreendido em atitude suspeita no Bardo Kiko, o homem era conduzido a um camburão naquele instante pelos policiais, que a custo o protegiam de tapas e socos desferidos pelos mais exaltados da platéia..
Ao ver que a roupa do acusado correspondia à de Transparência, o coração de Almina disparou. O mesmo local marcado para o encontro, a mesma roupa... Então sua amiga Inês estava certa: o sujeito era mais um bandido, desses que proliferam na internet.
A revolta fez a mulher apoiar-se num par de ombros anônimos à sua frente e, saltando como nunca, acertar um soco na cabeça do detido.
- Toma essa, Transparência safado! – gritou Sombra de Dúvida. Um dos soldados tratou logo de empurrar o suspeito para dentro do carro da polícia, enquanto afastava a agressora com o braço.
Já a caminho de casa, Almina revirou a bolsa à procura de lenço para enxugar lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Não sabia se preferia morrer ou tomar doses generosas da vodka do Tesourão. Sequer reparou no passageiro que saltava do táxi em frente ao Bardo Kiko, do outro lado da rua. O homem vestia jeans preto, camisa pólo vermelha e calçava tênis.
Nas mãos, levava um botão de rosa.

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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Medo no caldeirão

(Imagem: Flickr, do álbum de rsconnett)

Pesquisadores das universidades de Estocolmo, Bristol, Sheffield e Durban, depois de analisarem mais de cinco milhões de livros digitalizados de autores norte-americanos e ingleses ao longo do século XX, concluíram que apenas o medo voltou a aparecer nas narrativas com maior freqüência nas últimas décadas.

O estudo aponta que os escritores já expressaram mais suas emoções, e segundo Alberto Acerbi, do Departamento de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Bristol, inicialmente houve surpresa ao se constatar que períodos marcados por emoções positivas ou negativas na literatura se relacionavam ‘muito bem’ com eventos históricos daquele momento. Os ‘picos’ de alegria foram registrados nas décadas de 1920 e 1960, mas as expressões que remetem ao medo voltaram a crescer a partir dos anos 70.

A notícia apareceu no G1, e tem um jeitão de realidade provada, comprovada ou aceitável, mesmo entre nós. Não há como a literatura de um país ou de determinada cultura passar ao largo da realidade vivida por seus autores. E se a cultura do medo ainda está por vir, então que Deus tenha infinita compaixão de seus peregrinos.

Livros à parte, nada parece render mais lucros e vantagens hoje do que ele mesmo – o medo. Só não se teme o monstro maior da ignorância. Doente, a sociedade observa, com relativa leniência, o avanço do crime, da pusilanimidade das lideranças e da ditadura de minorias, que ganham força pela intimidação diante da insegurança e da corrupção.

Em Brasília, um jovem foi assassinado porque ousou reclamar de um grupo que consumia drogas abertamente no prédio onde morava. Nas cracolândias que se espalham pelas grandes cidades, a autoridade está a ponto de ter que pedir licença para se aproximar e cumprir o seu papel em defesa de uma sociedade cuja ampla maioria, estarrecida, pede socorro.

O grito e a violência podem, assim, acabar ocupando o lugar reservado à lei e à boa norma de convivência política e social. O parlamentar que teve a infelicidade de contrariar essa boa norma – que inclui a democrática e tolerante convivência com os opostos – hoje se vê promovido graciosamente a muitas horas de fama e celebridade, não apenas pela atitude de alguns pouco civilizados representantes de uma daquelas minorias, mas também por uma mídia venal e manipuladora.

A turista norte-americana, abusada dentro de uma van no Rio de Janeiro em companhia do namorado francês, foi oferecida pelos bandidos a um comparsa, que a recusou dizendo que a jovem estava ‘muito estragada’. Segundo se divulgou, os próprios policiais que tiveram contato com o casal e ouviram-lhe o relato doloroso, ficaram sensibilizados – e, mais que isto, horrorizados – com a crueldade a que a moça foi submetida.

Outros tantos episódios que denotam a barbárie que avança sobre os cidadãos de bem, quando muito, mal conseguem mobilizar, em tímido movimento, pouco além de meia dúzia de gatos pingados, chorosos e carregando faixas pedindo justiça. E tudo vai terminar com uma autoridade prometendo ‘apuração rigorosa dos fatos’. Porém jamais se conseguiu pressionar, com a tão extraordinária eficiência de algumas minorias, sonolentos poderes da República, despertando-os para o incomensurável débito que têm para com a sociedade, que lhes paga salários e mordomias.

Este, o caldeirão atualmente mais disponível à criatividade dos que buscam registrar, para a História, as pegadas de uma cultura onde a hipocrisia e a violência fazem do medo seu principal ingrediente.