sexta-feira, 6 de abril de 2018

Rotos e esfarrapados

(Imagem: Lars aspas on...)



Independente de qual seja o desfecho para a crise institucional que vive o país, chama atenção a maneira corrosiva com que se agridem os polos ideológicos cultivados numa sociedade que tangencia o desequilíbrio. Há donos da verdade de todos os lados, inclusive – e sobretudo – acima da lei.

Irrigadas por esse fel, as redes sociais disseminam o que há de pior em piadas de mau gosto, notícias falsas e carregadas de veneno, destinadas a acirrar ainda mais os ânimos. Talvez fosse o caso de se pensar em recrutar novos governantes em meio a tanta gente que esbraveja Justiça, competência e Verdade. Como no futebol, onde, no Brasil, o número de técnicos se aproxima dos 200 milhões.

Mas o que assusta é a impiedade com que se flagela quem comete erros. Uma impiedade boboca, galhofeira e arrogante, que tenta esconder a própria essência, moldada no mesmíssimo barro de pouca liga de que são feitos também os que caem em desgraça e, flagrados no erro, são pegos pela Justiça.

Humanamente miseráveis somos todos nós que, por misericórdia do alto, podemos fazer o percurso de vida sem cometer determinados crimes. Mas nem por isso será outra a nossa essência, que também erra e pode ferir – até com muito mais profundidade – através de arma mais letal: a língua.

É útil lembrar aqui do fariseu da parábola, que agradecia a Deus por não ser "como o resto dos homens, ladrões, injustos", e nem como o publicano que, ao fundo do Templo, sequer ousava levantar os olhos, mas batia no peito pedindo piedade por se considerar um pecador.

Convenhamos: não anda faltando só Verdade e Justiça, mas um tanto da boa, rara e salutar humildade.

terça-feira, 27 de março de 2018

Ocaso

(Imagem: Pinterest)


O diplomata e escritor Marcelo Cid publicou, numa rede social, dois enganos de crianças ao cantar o Hino Nacional brasileiro. No primeiro caso, uma turma inteira de pequenos estudantes ouvia o verso "do que a terra mais garrida" como "do que a terra margarida". No segundo, uma tia do próprio escritor, segundo ele, cresceria cantando "oh, lava a roupa e estende desse lado", ao invés de "o lábaro que ostentas estrelado".

Minha filha não deixava por menos, quando punha todo o fôlego em timbre de voz infantil para cantar "bendito o pernilongo desta fórmula", no lugar de "bendiga o verde louro desta flâmula". E para não sair de casa, aos quatro anos de idade meu neto Gabriel dava à melodia do hino um recheio de sons indecifráveis. Como pimpinichitu, umalibi e acebeldade. Em três "versos" ele recorria à palavra 'polvo': um polvo seu volato da pumompom, um polvo sa taná esse estante e um polvo esteve lá tá sa fundano, a ti.

Limitações à parte, justificadas ou não, ouvimos e repetimos desde muito cedo sobre liberdade, um povo heroico, e uma pátria que é mãe gentil dos brasileiros. Ainda: sobre um futuro que espelha a grandeza de um gigante naturalmente belo, forte e destemido. O que, convenhamos, destoa razoavelmente da realidade de quem começa o dia trabalhando duro e segue assim anos a fio, pagando impostos absurdos e vendo-se espoliado pela roubalheira que, ao invés da grandeza do gigante, espelha a vergonha dos filhos de uma pátria nada gentil com sua prole.

Separando mãe e filhos existe uma elite que a confiança da maioria, crendo ainda no valor da palavra, elegeu para representá-la. Desavergonhadamente traídos, os eleitores são hoje apresentados às entranhas de uma organização criminosa, sobre cujos líderes o guarda-chuva da lei parece extraordinariamente mais amplo e generoso do que o é para os filhos daquela mãe gentil que o hino proclama.

Vai-se assim, de geração em geração, adiando o futuro. Afinal, sonhar pra quê?

Como na letra da canção, o sol está se pondo.

E o tempo esgota os sonhos.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Papo de boteco


(Imagem: MTLR)



- Vá acreditar na fidelidade das pessoas, que a vida logo te dá uma rasteira e derruba você uma, duas, várias vezes. Até você aprender que nada mais frágil e traidor que o pobre coração humano.

A sabedoria era proclamada por uma voz que sobressaía ao falatório do botequim lotado. Seguia dizendo que lá por onde andara apareceram, em certa ocasião, dois forasteiros de berço e hora desconhecidos. A um, pela aparência, se chamou Bigode. Ao outro, franzino e frágil, se atribuiu a alcunha de Provisório, dada a impressão de que logo desapareceria das ruas, encaminhado talvez aos cuidados de uma entidade assistencial.

Bigode e Provisório viviam em paz, sem brigas e confusões desnecessárias, nem ameaças à paz e à segurança públicas. O comportamento sociável de ambos era a garantia de alimento farto, olhares de complacente indiferença e muitos, muitos momentos de confraternização, diversão e diálogo com os irmãos em abandono.

Sabe-se lá por que razão, Bigode e Provisório afinaram predileções e uniram-se em amizade. Aonde ia um, ia o outro. Não se separavam mais que a distância de um quarteirão. Espertos, descobriram logo quando e a quem deviam se insinuar. De invisíveis, tornaram-se simpáticos e confiáveis.

Um dia a sorte os contemplou pelo olhar e estima solidária da moça das artes e de seu companheiro. Dali ao afago da acolhida foi um instantinho só. Bigode e Provisório adaptaram-se à vida agitada e colorida de personagens do circo e de heróis do mundo infantil.

Fidelidade e companheirismo acima de tudo – era o lema da dupla. Houve até quem jurasse ter flagrado, em algum momento de muita agitação, a troca de um piscar de olhos entre Bigode e Provisório.

- Vá ver, era só impressão, porque cachorro não pisca um olho quando acena cumplicidade – filosofou no botequim outra voz que tropeçava nas palavras.

Conversa, só. Papo de boteco.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Amanhecer

(Imagem: Pinterest)

Poeta e contista brasileiro, Pedro du Bois é autor de poema intitulado 'Amanhecer', no qual fustiga a inquietude do nada que representamos diante de uma imensidão desconhecida e infinita, permeável pela imaginação e pela Fé. “Em que hora da pré-história / tivemos o primeiro beijo / entrelaçamos as mãos / e trocamos olhares?”.

Desde a névoa dos tempos, nosso pobre, imperfeito e desfigurado amor humano é o que nos divide, enquanto navegamos entre galáxias nesta imensa nave, carregando sonhos, expectativas e ilusões. Nela acordamos um dia sem o pedir, e nela seguimos criaturas marcadas pela mesma finitude que nos iguala – Homem do século 21 – ao nosso irmão do primeiro século da Era Cristã. É desde então que vimos desenhando nosso futuro, à procura do amanhecer além do entrelaçar das mãos.

Para Nélida Piñon, a vida é um campo minado. Transitar por terreno tão traiçoeiro requer de nós o sentimento ao qual não somos inclinados por natureza – ou seja, o amor, que nossa miséria tende a corroer, desfigurando-o como desfiguramos a Verdade.

Fernando Lébeis falou das “coisas mágicas que chegam, fascinam e depois lá se vão, levando um pouquinho da gente”. Perdidos no labirinto de frívolas urgências e informações caprichosamente inúteis, vagamos não raro por noites sem fim, na expectativa do verdadeiro amanhecer que o desamor nos oculta. “A mesma Sabedoria que bruxuleia em mim, rasga a minha nuvem e encobre-me de novo, quando desanimo por causa da escuridão e do peso das minhas misérias”, escreveu Santo Agostinho.

“Quando começamos a amanhecer?” – é a pergunta que Pedro du Bois nos deixa ao final de seu belo poema.

Apesar do extraordinário drama da aventura humana, a esperança que carregamos conosco, de alguma forma, nos leva a encarar o amanhecer das descobertas como prenúncio de definitiva aurora.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Truques e blablabás


(Imagem: Pinterest)

O primeiro relato oficialmente registrado do chamado 'truque indiano da corda' foi publicado por um jornal de Chicago em agosto de 1890. Viajando pela Índia, um pintor e um fotógrafo viram um faquir de rua jogar para o alto um rolo de corda, cuja ponta solta ele prendera pelos dentes. A corda se desenrolou, até que a outra extremidade desapareceu do campo visual. Em seguida, um garotinho subiu pela corda, e quando estava a cerca de dez metros de altura, sumiu. O pintor fez um esboço do evento, e o fotógrafo registrou com sua câmera, mas quando as fotos foram reveladas, não mostraram nem corda nem menino. Havia apenas o faquir sentado no chão.

Apesar de repetidamente desacreditado, o truque conservou sua credibilidade até ser revelado firme e decisivamente como um embuste em 2005, quando um pesquisador da Universidade de Edimburgo, na Escócia - Peter Karl Lamont - o deu como exemplo clássico de como as ilusões da memória se enraízam na mente humana.

O episódio é relatado por Stephen L. Macknik e Susana Martinez-Conde, dois diretores de laboratórios do Instituto Barrow de Neurologia de Phoenix, no Arizona. Ambos acrescentam que, segundo Lamont, uma duradoura fraqueza humana é a que leva as pessoas a crer na veracidade de imposturas e boatos, "a despeito de todas as provas em contrário, inclusive da negação por parte de quem os originou, se as afirmações de veracidade forem repetidas com frequência suficiente". Ou seja: mentira reiterada vira verdade.

Há quem afirme que memória demais pode nos matar. Para o filósofo alemão Gadamer, a mente humana só tem chance de se renovar completamente graças ao esquecimento. A questão é que, arrogantemente tontos, insistimos em adotar a conduta daquela esforçada secretária, de quem o chefe queixava-se por lembrá-lo do que ele queria esquecer e esquecer-se do que ele precisava lembrar.

A História registra o pedido de Cícero ao Senado romano logo após a morte de Júlio César, para que se condenasse a memória das “rixas homicidas” ao esquecimento eterno em nome da paz.  A mesma atitude teria, em 1814, Luís XVIII ao recuperar o trono, decretando que se esquecessem as atrocidades, incluindo o regicídio, cometidas durante a Revolução Francesa.

Abraçamos ilusões e embustes, ruminamos desafetos e desaforos, mas começamos por esquecer que somos preferencialmente imêmores. Esquecemos amigos, sonhos, objetos, promessas, desejos, compromissos, perguntas e respostas. Esquecemos favores, amores e desamores. É possível ficar perdido até na hora de dar o nó da gravata - hábito que se tornara rotina durante boa parte da vida.

São mesmo assim as memórias: como a palha que o vento leva. Ainda que o tempo distorça nossas lembranças, retemos apenas o que o determina nosso coração. “Esqueceram-te os que te amavam, e contigo nem mais se preocupam”, lamentou o profeta Jeremias.

Com um pouco da boa sabedoria (que não costuma transitar pela mídia), saberíamos driblar melhor truques da memória. Identificaríamos, por exemplo, os embustes eleitoreiros, levando-nos a condenar ao esquecimento eterno os atuais políticos.

Razoavelmente sábios o suficiente para entreabrir a espessa venda da ignorância, talvez reconhecêssemos com mais clareza os dons e as graças que abundantemente recebemos em nosso dia a dia.

Sem truques e sem blablabás.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A baleia e o ciclista

(Imagem: Pinterest)

Republiquei há algum tempo neste Pretextos-elr sobre o desabafo de um médico do estado do Rio que, há 30 anos, assistiu pela tevê uma mulher morrer à porta de um hospital público, onde os médicos faziam greve. Instadas a tomar providências em caso de urgência, as enfermeiras negavam ajuda enquanto, protegidas atrás de grades, limitavam-se a gritar que não eram médicas.

Três décadas depois, permanece inalterada a marca do egoísmo que caminha conosco, denunciado por aquele médico carioca. Os exemplos são recorrentes, e vão desde profissionais da saúde que negam atendimento em unidades públicas, a policiais que se entrincheiram nos quartéis e delegacias, em protesto contra o não pagamento de seus salários e as péssimas condições de trabalho.

Parece inútil implorar socorro diante de vidas humanas que se esvaem. Nada comove ou chama à razão quem administra mal os recursos destinados a garantir retorno ao cidadão que paga impostos. Assim como as próprias urgências de bolso, é preciso ainda satisfazer a goela que alardeia o que o caráter do sujeito não o deixará cumprir. Há outras providências a tomar – estas, sim, urgentes. Atendidos os próprios interesses, há que considerar os do partido pelo qual se foi eleito. E há também os companheiros que emprestaram seu apoio, os compromissos confessáveis e inconfessáveis assumidos com o restrito círculo do Poder...

O perigo que nos ameaça não é a baleia azul, mas o oceano de indiferença que escolhemos para navegar em canoa furada. Além de garantir espaço na mídia, dá mais ibope o gato de rua que mobiliza a solidariedade de um prédio inteiro. Assim como a tartaruga maltratada ou o pato atropelado que ganha prótese especial. A era não é só do egoísmo, mas do bicho.

Encarapitar-se na própria soberba ou tangenciar, em despreparo, a sombra do Poder, é tantas vezes suficiente para desprezar o indivíduo e ignorar sua dignidade. A cartilha de quem governa, segundo escreveu certa vez um ex-presidente, é entender povo como massa que se manipula de acordo com os interesses maiores do Estado.

Portanto, pessoa não é gente, é conjunto. É povo. E povo é massa, dócil e crédula.

Invisível como ciclistas no meio do trânsito.

(Repost - Editado)

domingo, 31 de dezembro de 2017

Desejos


(Imagem: Pinterest)

Menos massacre por parte da mídia, mais respeito à inteligência do telespectador. No ano novo, merecemos a qualidade que os meios de comunicação social nos devem.

Sendo inevitável conviver com a mentira, possa a sabedoria ajudar-nos a identificar os mentirosos, desviando-nos de seus caminhos. A começar pelos políticos, a serem fiscalizados, cobrados e denunciados com a mesma devoção com que fraudam e mentem.

Menos sofreguidão dos ricos para enriquecerem mais, compensada por momentos de reflexão sobre o peso que sua ambição representa na vida de uma multidão incontável de pobres e miseráveis. A severidade na cobrança será tão certa quanto sua ilimitada ganância.

Menos a culpa é deles e mais vamos fazer a nossa parte, como resposta à urgência na preservação do meio ambiente, em reação à estonteante estupidez a que, comodamente, nos atrelamos.

Menos discurseira inútil visando o lucro e a urna em torno de temas como racismo, diversidade de gêneros e empoderamento feminino. E mais atitude e respeito em defesa de todos – maiorias e minorias.

Mais acolhimento e valorização à experiência dos idosos; mais cuidado e dedicação à educação dos jovens; mais compaixão e ternura com as crianças. Elas herdarão o ônus de um futuro sombrio, graças à irresponsabilidade do nosso egoísmo.

Mais olho-no-olho e menos olho-no-próprio-umbigo, com polegares digitando compulsivamente rios de bobagens lançadas em profusão nas redes sociais.

Menos violência em relação às pessoas e – por que não? – à pobre Língua Portuguesa, desfigurada e trôpega diante de tantos maus tratos.

Menos arrogância, mais simplicidade e mais verdade.

Começando já, e estendendo-se por todo o ano de 2018 e seguintes.

Rotos e esfarrapados

(Imagem: Lars aspas on... ) Independente de qual seja o desfecho para a crise institucional que vive o país, chama atenção a maneira ...