sábado, 24 de setembro de 2016

O candidato


(Imagem: Pawel Kuczynski / yogui.co)


- O amigo fique sabendo que hoje me sinto mais leve, como há tempos não acontecia.

- Ah é? Posso saber o motivo desse ar assim tão satisfeito?

- Poder até pode, mas sabe como é, né? O assunto nem é muito bom de se conversar assim, numa fila de banco...

O outro deu um sorriso amarelo e calou-se. Para por um fim na conversa e dissimular a curiosidade, passou a ler as instruções de uso impressas na embalagem de um inseticida para plantas que trazia numa sacola. “Vai ver, o assunto do levezinho aí é mulher”, pensou.

- Mas o amigo fique à vontade se não quiser conversar a respeito. Eu não lhe confessei o motivo de meu alívio, e penso que não seria justo deixar assim a coisa no ar...

- Sim ? – o primeiro gemeu erguendo as sobrancelhas, mas sem desviar os olhos da embalagem de inseticida.

- Pois então, o motivo é a política.

O leitor das instruções de uso enfiou a embalagem de inseticida na sacola, arregalou os olhos e desligou-se do mundo para entregar-se à conversa.

- Ah, é?

- É. A soberana voz do povo falou mais alto e não elegeu a maioria dos candidatos que nos torturaram pela tevê, pelo rádio, pelos alto-falantes, pelo telefone fixo, pelo telefone celular, pela imundície das ruas, pelo discurso mentiroso, pela falta de projetos, pela falta de respeito...

Só a sacola com o inseticida para plantas do petrificado leitor das instruções de uso fazia algum movimento, agitada pela brisa. O levezinho então parou e tocou o braço do outro:

- Tudo bem com o amigo? Algum problema?

- Claro... claro... quer dizer, nenhum problema.  Eu prestava atenção no que o senhor falava.

- Pois é o que digo. E os nomes dos candidatos? Fiz questão de guardar o santinho daquele que, a meu ver, foi a derrota mais merecida, a que me lavou a alma.

- Quem era ele? – perguntou o leitor das instruções.

O levezinho remexia os bolsos, tirava montes de papel dobrado – receitas médicas, volantes de loteria, fichas de caixa, contas...

- Ô, gente, cadê o danado? Tava aqui...

O outro espichava o pescoço, enfiava os olhos pelos bolsos do levezinho, chegou a deixar no chão a sacola para desocupar as mãos que, inquietas, queriam ajudar na procura.

- Ah, achei! Tá aqui o desgraçado! – e o levezinho sacou, de dentro de uma conta, o santinho que procurava. Orgulhoso, exibiu-o como um troféu de caça ao leitor das instruções.

- Olha aí o campeão da chatice universal: Tadeu Tingole! Encheu o meu saco, encheu o saco de todo mundo na minha rua, no meu bairro...

Aqui, o levezinho fez uma careta, ensaiou trejeitos e começou a cantar o jingle do candidato derrotado.

- Todos juntos com o Tingole / que é bom, que não é mole... Bem feito, foi engolido!

O leitor das instruções olhava o santinho do candidato e devolvia o olhar para o levezinho, que continuava a cantar o jingle do Tadeu Tingole.

- Mas o senhor não desconfiou de nada não?

- Se desconfiei? – perguntou, alegre, o levezinho. – Desconfiei de tudo desse sujeito aí, por isso fiz a maior campanha contra ele.

Segurando a sacola com a embalagem do inseticida, o leitor das instruções tinha o rosto vermelho, as narinas anunciavam um fogaréu. Súbito, estendeu a mão direita, pegou a mão do levezinho, e antes que este desse pela coisa, apertou-a dizendo com ironia:

- Muito prazer, eu sou o Tadeu Tingole. Desde já, considero-o dispensado de votar em mim no próximo pleito. Passar bem!

Disse e retirou-se, pisando duro. A mulher que estava à frente do levezinho desabou em gargalhada.

- Desde o começo eu achei a cara dele parecida com a do Tadeu Tingole...

- Mas ele no santinho tem cabelos pretos e lisos, olhos claros e aparenta não mais que 35 anos. Esse cara que estava aqui é meio careca, cabelos grisalhos, olhos escuros e tem mais de 50 anos. Como é que eu ia adivinhar que era o Tingole?

- O senhor não sabe não? Meu neto disse que é esse negócio de computador. Tem um programa que bota a gente novinha na fotografia...

O levezinho não sabia o que dizer, mas a mulher continuava a falar.

- O senhor não acha que seria muito melhor um programa que pusesse a gente novinha de verdade? – perguntou piscando o olho para o levezinho, que guardou o santinho do Tadeu Tingole no bolso e não quis mais saber de conversa.

(Publicado em A Idade da Maçã)

sábado, 17 de setembro de 2016

Nanicos



(Imagem: Pinterest / Steve Cutts)


A triste página de sua história que a Nação escreve bem poderia dispensar o longo desfile, pelas tribunas da Câmara e do Senado, de políticos nanicos chamando a si os méritos pela cassação de mandatos – seja quem for o cassado –, exibindo-os como um troféu conquistado em batalha.

Essa demonstração de pequenez e imaturidade para exercer um mandato parlamentar tem marcado presença constante nos discursos de representantes de partidos que, em verdade, pouco ou nada dizem ao cidadão exasperado diante do que vê e prevê.

Se é indiscutível o fato de a democracia não prescindir de partidos políticos e seus membros, não menos verdade é que, apesar disso, persiste o mau cheiro que exala do cenário onde lideranças deveriam agir em nome do cidadão. Este, chamado regularmente a trocar seu voto por promessas tão voláteis quanto sorrisos e apertos de mão de candidatos durante a campanha eleitoral, tem sido desrespeitado sem o mínimo constrangimento da parte de quem o representa, agravando um mal que pela própria democracia se deve curar.

Buscar vantagens servindo-se da tragédia é prática recorrente. Veja-se o exemplo da mídia, que explora o tema à exaustão visando apenas assegurar audiência e faturamento. Rumina-se sem dó, nem piedade, a morte trágica do ator e a do anônimo nas ruas, vítima da insegurança que a improbidade alimenta com fartura. Sob a falsa aparência de solidariedade ou prestação de serviço, destrincha-se a dor e o sofrimento alheios para lucrar.

"Há, sem dúvida, uma estreita ligação entre a avaliação que o cidadão faz do Parlamento e o desempenho ético dos parlamentares", escreveu o então deputado Aécio Neves na introdução da edição de 2002 do Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados.

E há mesmo. Uma ligação que, de tão estreita, tem passado despercebida por boa parte dos que entendem representar um eleitor cada vez mais determinado a cassar-lhes o mandato que usurparam.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Pimpinâncias

(Imagem: BETLR)


Uma fileira de pequenos adesivos colados na parede do banheiro assinala importante conquista de Gabriel no uso, primeiro do peniquinho, depois do vaso sanitário. Dispostos em linha reta estão heróis, planetas, símbolos, logomarcas e bichos, entre os quais o golfinho Bastapolo, o cavalo marinho Lacutaco e o peixe Mutucalo.

Tempos olímpicos (relativamente ao esporte, e não ao caradurismo na política) acabaram apresentando aos quatro anos do herói o Hino Nacional Brasileiro. Dono de ouvidos sensíveis a ritmos e acordes e, além disso, atento e aplicado intérprete de canções que lhe despertem o interesse, o pequeno patriota deu início dia desses à cantoria no banheiro, diante das marcas enfileiradas de suas vitórias.

Em gravação feita pelo pai, o cantor começa com um surpreendente 'pimpinante' (retumbante?). E segue na melodia original:

"O alfava da umalibi pimpinichitu / O pipi ta na panela da xistante / Se espelhavam acebledade / Que va ser o môfo da felicidade / Pulvanado vossa excelência / Que va ser o mofo da natuleza / Você pinquê, inda megê, sem ser pingê, sansão / Da fôlve de são blinau flugê cissu / Um polvo seu volato da pumompom / Um slom tão panão uvê etu / Um polvo sa taná esse estante / Se beleza, a ser beleza / Que fazer o morro da natuleza / Ta sa fundano, tem nui da, tem nui da, ô da / Um polvo esteve la ta sa fundano a ti..."

Às palavras novíssimas que Gabriel nos apresenta, certamente se juntarão as mumificadas fúlgidos, impávido, fulguras, florão, garrida, lábaro e plácidas, tão desconhecidas para ele quanto para milhões de brasileiros adultos, alfabetizados ou não. Ainda assim, Gabriel certamente haverá de dominá-las em futuro que se deseja brilhante, com a beleza da natureza preservada e onde excelências não permitam o môfo de uma felicidade nacional sempre adiada.

Sem poder contar com um Sansão que nos dê uma mãozinha, que ao menos mereçamos as bênçãos de Deus e um pouquinho da fôlve de São Blinau.

Amém.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Notícia de amor

(Imagem: Pinterest / Claude Monet)


A manhã azul e fria encheu-se do ruído habitual. A novidade era aquela inscrição no asfalto, pintada caprichosamente por mãos anônimas durante a madrugada: Laura, me perdoe. A súplica terminava em um coração bem desenhado, cujas linhas contornavam um buraco ainda pequeno, mas que a chuva e o trânsito se encarregariam de ampliar como a dor de uma paixão não correspondida.

Estrategicamente posicionada para ser vista do pequeno prédio de apartamentos bem em frente, a mensagem chamava a atenção de quem transitasse por ali, particularmente dos passageiros que aguardavam o ônibus na calçada do outro lado da rua. Quem seria Laura

- Falta de vergonha, sujar assim a rua... – reclamou a jovem abraçada a uma pasta recheada de papéis, apontando para a pichação enquanto buscava com o olhar o apoio da mulher que usava um chapeuzinho de flores.

- Gente que não tem o que fazer... – acrescentou o homem de guarda-chuva.

A mulher voltou-se para um e outro e argumentou: talvez aquilo fosse resultado de um arrependimento profundo, com o arrependido já tendo tentado todos os meios, sem sucesso, para alcançar o perdão da amada. E, à beira de um ato de desespero, tornara pública a sua dor, vendo naquela pichação sua última esperança.

- Coitado! Só quem já passou por uma situação dessas sabe avaliar bem o que representa tamanho sofrimento... – disse. E arrematou:

- Todo mundo fala nele, mas pouca gente conhece, de fato, o que é o desespero.

- Eu conheço e muito bem! – rebateu o homem do guarda-chuva. – Sabe lá o que é morar onde seu vizinho do prédio em frente tem um casal de poodles que passa o dia e parte da noite na varanda do apartamento, latindo sem parar?

- Isso é coisa de um tal Sedecias – atalhou uma voz cujo dono escutava a conversa do outro lado do poste. – O homem era apaixonado por essa Laura, até que ela terminou com ele pra ficar com um cara milionário. O Sedecias achava que a culpa era dele, e fez de tudo pra reconquistar a mulher. Até que passou por aqui ontem à noite, ligou pra ela, tocou o interfone e nada. Saiu e voltou de madrugada trazendo com ele pincel e tinta. Estava chorando quando pichou o asfalto. Foi embora em seguida, dizendo que encontraria paz nas linhas do trem.

- O senhor não fez nada para impedir? – indignou-se a jovem.

- Fazer o quê, dona? Eu não estava aqui, não. Quem me contou isso foi meu cunhado, e quem contou pra ele foi o porteiro da noite no prédio do lado.

- Tá certo, ele pichou a rua... – emendou a jovem. – Mas não precisava tomar atitude assim... tão definitiva!

A moça pegou o celular enquanto todos permaneciam em silêncio.

- Alô, Fonseca? Pauta aí matéria que envolve pichação, caso de amor e provável suicídio. Manda equipe aqui pra Rua Manoelito Mignon. Repórter e cinegrafista devem procurar uma tal Laura no número 235. Desesperado, o ex-namorado dela pichou um pedido de perdão no asfalto, mas a Laura trocou o cara pra ficar com um sujeito rico. Então o apaixonado disse que ia encontrar paz na ferrovia.

Sem jamais aparecer, dar uma declaração ou conceder uma entrevista, Laura não passaria de um vulto fugaz de chapeuzinho numa das janelas do edifício, registrado em imagem de baixa qualidade feita por celular anônimo.

Nos dias que se seguiram, correria a notícia de que a misteriosa personagem não apenas perdoara seu ex-amante, como estaria à sua procura.

Exceto um passageiro clandestino que, flagrado em vagão de carga de uma composição admitira ter embarcado ali como primeira etapa de uma volta ao mundo pegando carona, não se registraria qualquer anormalidade no tráfego de trens que atravessavam a cidade.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As malas de Marina

(Imagem: Pinterest)


Há tempos dei com pequeno texto de Marina, jornalista de passagem meteórica com seu blog pela internet. Ele começava com a dúvida sobre se Lisboa dormia cedo demais, ou se era ela, Marina, quem estava sempre acordada.

Pois há textos que pegam a gente e não largam. E esse é um deles. Tratei de conservá-lo, e creio que registrei comentário à época. Se não o fiz deveria tê-lo feito, pois o texto merece.

A autora transpira dolorosa solidão em apenas uma dúzia de linhas. Da janela, Marina não mais reconhece o silêncio de ruas que já não lhe dizem nada. “O barulho dos raros carros em Arroios em nada diferem dos sons de ninar que agora passam num canal português”. Canção, aliás, que não chama e nem lhe tira o sono.

Uma semana havia se passado desde que Marina chegara à capital portuguesa, mas as malas continuavam “quase intactas no chão, prestes a serem levadas para o primeiro autocarro, comboio, avião... para um destino qualquer”. Destino que já fora Dublin, de onde, “apesar do nojento cheiro de cerveja e catchup das ruas”, brotava saudade naquela noite quente de Lisboa.

Sozinha pelas ruas, a autora confessava, melancolicamente, sentir um vazio e “um não sei bem o que é”. Quanto mais conhecia os cenários, Marina mais descobria sua paixão pelas pessoas. “Sozinha, tudo não passa de mera paisagem” – concluía.

Na ocasião em que o li, o texto me pareceu capaz de provocar a mesma dor com que alguém descrevia a própria solidão. E ainda hoje ele é forte, desenhando uma espécie de saudade das gentes, de uma humanidade que, imaginada solidária na singular e comum aventura, apenas na catástrofe consegue por vezes recorrer a um tênue e invisível laço fraterno.

Não soube mais de Marina, nem de suas malas quase intactas em Lisboa. Muito menos da solidão que, em poucas linhas, deixou escapar num fragmento de dor tão vivo e tão verdadeiramente humano.

Tomara fosse ele contagiante, espalhando-se por aí, pelas noites quentes, desmanchando malas sempre prontas a partir para o imenso vazio de um individualismo absurdo e suicida.

(Repost)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Ana

(Imagem: Pinterest, do álbum de Lindy Nobre Scher)



Abriu o portão da garagem pela manhã e deu com um carro estacionado bem em frente, impedindo sua saída. Esperou pelo motorista, mas atrasado para o trabalho, fez um bilhete e prendeu-o no limpador de parabrisas: “Você me impediu de sair. Em consideração, deixo de solicitar o guincho”.

Ao chegar em casa no final do dia, o homem encontrou um papel cuidadosamente dobrado e metido numa fresta da porta,: “Sinceras desculpas! Tive problemas com Michelle e fiquei aflita. Um abraço. Ana”.

O bilhete de Ana (nome de sua primeira namorada) recendia familiaridade, calor humano e um perfume agradavelmente suave. Mesmo por escrito, era impossível ficar indiferente a uma saudação que, nascida de um pedido de desculpas, desembocasse num abraço e permitisse ao destinatário supor até um sorriso da remetente. Além do mais, não conhecera Ana que fosse feia.

Já amplamente desculpada, a motorista que bloqueara sua saída inquietara-lhe a solidão. Insone, ficou supondo Ana, desejando que o carro da mulher novamente estivesse lá na manhã seguinte, bem em frente à sua porta. Esperaria para conhecer a motorista, perguntaria por Michelle, trocaria impressões sobre o tempo. E, claro, relevaria o novo bloqueio com a desculpa de que não iria ao escritório.

Mal haviam começado a colorir-se os dias daquele solitário, os rabiscos de esperança logo se desfizeram: nenhum carro impedindo sua saída da garagem, nenhuma Ana, nenhum novo bilhete que atualizasse aquele, cuja releitura frequente marcara o papel com rugas e dobras. A cada exame de seu conteúdo, o homem descobrira entrelinhas com insinuações sutis, convites, acenos – tudo mais que suficiente para transformar mensagem casual em apaixonadíssima carta de amor.

Ana só apareceria numa fila de supermercado poucos meses mais tarde, quando o homem já relegara o bilhete ao fundo de uma gaveta. Suspeitara que fosse ela pelo perfume e pelo nome de Michelle, que ela chamava a todo o momento pedindo calma à criança que trazia consigo. Ana era como ele imaginara: uma mulher linda.

Seguiu-a até o carro, que confirmou sua suspeita. Com o coração aos pulos, identificou-se como o autor do bilhete que anunciara dispensa do guincho em consideração... Ela se lembrava ainda?

- Ah, sim, mas isto foi em frente à casa do meu amigo Roberto Almeida, ali na rua Cascais, né?

- Rua Cascais, 95... – o homem respondeu à meia voz.

- Isto!

- É que eu comprei a casa do Roberto...

Ana sorriu com um traço de timidez e pediu desculpas em dobro: pelo bloqueio da garagem e pelo engano no tom familiar com que redigira o bilhete. Em seguida, entrou no carro e, antes de partir, recomendou a Michelle que desse “um adeusinho pro moço”.

(Repost)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A tosse da vaca


(Imagem: Pinterest, do álbum de FelipeArte)

Sem ter como segurar a língua nem suportar o silêncio naquela sala de espera, Jesualdo dirigiu o olhar para o teto e a provocação para o desconhecido que, de cabeça baixa, brincava com os dedos das mãos.
- Tá feia, a coisa...
O outro ergueu as sobrancelhas e deixou escapar um "é" comprido e sem compromisso. Jesualdo não se deu por satisfeito: queria conversa.
- É, a coisa tá preta mesmo.
O outro interrompeu um tricô imaginário e advertiu sobre a conotação preconceituosa da expressão.
- Preconceito? Eu? – admirou-se Jesualdo, apontando com o dedo a pele morena do próprio braço.
- Mas é preconceito... – insistiu o outro.
- Quê que é isso? Se eu posso dizer que essa cadeira aí é preta, a roda do caminhão é preta, não posso dizer que a situação é preta? – Jesualdo foi pegando gosto pela conversa.
- Isso eu não sei, mas que é preconceito, é.
Acrescentando momentaneamente a cor preta à política, religião e gosto – trio de assuntos que a boa e velha educação desaconselhava discutir – Jesualdo decidiu ser mais direto:
- É... Esse governo parece que tá de brincadeira, né? Tá judiando com a gente!
O outro, que já deixara de lado o tricô invisível para folhear com dissimulado interesse um exemplar de revista sem capa, mexeu-se na cadeira e arriscou:
- O senhor me desculpe, mas até pode ser que o governo faça lá uma ou outra bobagem. Afinal, todo mundo erra. Mas daí a dizer que está judiando, é mais uma vez uma atitude preconceituosa.
Aqui o boa praça do Jesualdo perdeu a fala e ficou de boca aberta, olhos arregalados e fixos em seu interlocutor, que de novo se desculpou.
- O senhor releve a minha insistência, mas judiar é palavra que remete a “judeu”. Não é a melhor maneira de se expressar. Desculpe a sinceridade.
Recuperado, Jesualdo foi mais fundo no que passou a considerar uma oportuna provocação:
- Olha aqui, meu amigo: desse jeito a gente vai ter que andar com uma listinha de palavras proibidas, né não? Preto não pode, judiar também não... O amigo não concorda que não dá pra seguir essa bobagem nem que a vaca tussa?
O outro empertigou-se na cadeira, o rosto ligeiramente corado de indignação.
- Primeiro, não sou seu amigo; segundo, o senhor está dispensado de ironias neste momento. E terceiro: se a vaca tosse ou deixa de tossir, é problema lá da ciência, da veterinária, sei lá de onde ou de quem. – E arrematou:
- Tem mais: se eu fosse pecuarista, lideraria um movimento que prevenisse possíveis prejuízos com esse negócio de vaca tossindo.
Dito isto, voltou a folhear a revista.
(Repost - Editado)