Sentado em frente à tenda do circo, o palhaço via de longe a cidade iluminada se preparar para comemorar o Natal. Pensava em como era difícil reter um pouco que fosse da alegria que proporcionava ao público. Embora produtor de momentos alegres – mercadoria que as pessoas buscam por necessidade – achava-se um sujeito triste e só.
Suas reflexões, no entanto, foram interrompidas pela aproximação de um homem corpulento e de barbas brancas. Trajado com simplicidade, carregava em uma das mãos uma sacola. Cumprimentaram-se.
- O 735 passa por aqui? - perguntou o estranho.
- É, passa. O senhor vai ter é que esperar...
O outro se sentou num caixote e foi logo dizendo que queria ter assistido ao último espetáculo do dia anterior, mas tinha trabalho a fazer.
- O senhor trabalha de quê? - quis saber o palhaço.
- Eu sou vigia noturno, mas nessa época faço nas minhas folgas um bico de Papai Noel. E o senhor?
O palhaço então meteu a mão na mochila que trazia, tirou de lá um chapéu colorido com uma flor espetada no alto, meteu por cima do nariz uma bola vermelha e olhou para o homem. O vigia soltou uma gargalhada.
- É o palhaço... Bonita profissão, a sua.
- Nem tão bonita assim... - lamentou o palhaço. Eu tento levar alegria à criançada, mas ela não dura muito. Nem eu mesmo consigo ficar alegre quando vejo tanta tristeza por aí. Agora, com o senhor é diferente: leva alegria sob a forma de presentes. As pessoas se sensibilizam mais com o senhor do que comigo
Imitando intencionalmente o palhaço, o vigia tirou da sacola um gorro de Papai Noel e o pôs sobre a cabeça. Em seguida, penteou a barba com os dedos.
- É, mas eu também tenho minhas tristezas. Minha alegria é menos real que a sua, porque é fantasia, está nos presentes ou na expectativa que as crianças têm em recebê-los. Na verdade, nem sou eu quem presenteia. Sou apenas um intermediário.
- Isso lá é verdade... – balbuciou o palhaço.
- E também – continuou o vigia – logo as crianças se esquecem, enjoam dos brinquedos. Agora, se eu pudesse produzir alegria como Você...
- E se eu fosse, em minha alegria, generoso e bom como um Papai Noel... - devolveu o palhaço.
- A sua alegria sai do coração, enquanto a minha é só um sonho. Bonito, mas um sonho.
- Mas os sonhos embalam a gente, embalam as crianças. Pode-se viver sem alegria, mas não se vive sem sonhos - filosofou o palhaço.
Calaram-se, pensativos.
A noite avançava, com luzes e festas brilhando à distância. O vigia já consultara o relógio duas vezes. O palhaço acabou quebrando o silêncio ao propor uma troca do que chamou "alegrias natalinas": ambos tentariam empregar um pouco da realidade do outro naquela noite.
- Eu não entendi, palhaço... palhaço... Como é seu nome?
- Mola Mole. Palhaço Mola Mole. Eu explico, Papai Noel.
O vigia se recompôs sobre o caixote, atento ao palhaço.
- Eu vou adaptar alguma coisa de Papai Noel ao meu trabalho – um ato de generosidade, dar alguma coisa a três ou quatro crianças da platéia. Não posso dar nada como o senhor, porque sou palhaço pobre...
- E eu, Mola Mole? - indignou-se o Papai Noel. - Sou um vigia de vida modesta... Mas gostei da proposta. Eu até poderia fazer algum truque engraçado...
- Pois então? Ensino ao senhor o truque da água que sai da flor do chapéu. Vamos trocar por hoje: o senhor vai com meu chapéu de flor e eu fico com seu gorro. É pra gente não esquecer que devemos adaptar nossos papéis. E depois é mesmo Natal, podemos ser um pouco diferentes.
O vigia ficou em pé de um salto. Entregou o gorro ao palhaço Mola Mole, que o colocou na cabeça, ajeitando no nariz a bola vermelha. Feliz da vida, fez o mesmo com o chapéu de flor, depois que o palhaço lhe ensinou o truque. Acertaram a destroca dos adereços no circo, antes do espetáculo do dia seguinte. Cumprimentaram-se em seguida, desejando um ao outro Feliz Natal.
Nessa hora, muito iluminado, surgiu na rua o ônibus 735.









